quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Sempre dá Tempo


Escrevi que pessoas de quarenta e poucos ou tantos anos ainda tem muito tempo para muitas coisas, inclusive seus maiores desejos ainda não realizados. Depois, lembrei de algo dito pela minha sogra, uma senhora de 87 anos, viúva ha dois meses: "Agora eu quero é viver. Só vou fazer o que eu quiser e gastar bastante dinheiro." Não que ela não amasse o marido, o problema foi tê-lo amado demais a ponto de, nos últimos dez anos, ter se esquecido de si mesma. Mulher antiga, depositava na família toda a sua energia. Era coadjuvante de todas as histórias da casa, alguém que mantinha o sucesso do espetáculo através do incansável trabalho nos bastidores. Com poucas vontades, mas muitas obrigações. Vários deveres e poucos direitos. Alguém que se acostumou  a servir sem quase nunca ser servida, a dar satisfação de cada atitude, de cada vontade.
Com os filhos todos casados, fora de casa, o foco passou a ser o esposo tão adorado. E eram para ele as frutinhas cortadas em rodelas, a alface picada no prato, a comidinha feita com carinho no fogão. Era para ele cada camisa lavada e passada, cada lençol cheiroso. Nunca a vi reclamar. Nos últimos anos, quando a convalescência dele fez dela uma enfermeira, o cansaço era suprimido pelas obrigações diárias, mas o sorriso no rosto esteve o tempo todo lá.
Somente com a partida do marido, todos souberam que o fardo andava pesado demais - minha pequenina e sorridente sogra, alguns dias depois do falecimento do seu amado, sofreu um enfarte. Não que já não tivesse desmaiado nos seus braços, ao tentar juntá-lo do chão, mas só depois de ter cumprido sua missão é que se deu ao direito de enfartar.
Só depois de ter sido a mãe e a esposa ideal, é que ela pensa em aproveitar o tempo do jeito que lhe convier. Pelo visto, com mais gastos, menos obrigações, mais privilégios, mais regalias e mimos, pois, para ela - que tanto mimou - esse é um luxo da qual ela não quer mais abrir mão.
Porque ela não tem tanto tempo, mas o tempo que tem ainda dá tempo.
De escolher, ainda, a felicidade.

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