Fiz a recente descoberta de que devemos olhar para o positivo, o bom, para acrescentarmos valor à nossa vida.
Ok. Mas como a vida, mesmo quando estamos voltados ao otimismo, nos apresenta várias situações de dor, penso que não podemos simplesmente fingir que as mesmas não existem.
A pior dor é aquela que não deixamos se manifestar, que nos corrói as entranhas, mas que a negamos com um sorriso no rosto. É aquela que nos faz trincar o dentes, rangê-los à noite, pois a banhamos com camadas de purpurina para nos encaixarmos no padrão de felicidade imposto pela mídia - quem não tem vida de comercial de margarina não vive, não é feliz nem bem sucedido.
Tudo mentira. Mesmo nos esforçando para viver o bom, a vida dói. E não precisa a dor ser excruciante para arrepiar a nossa pele, ela pode ser leve, e mesmo leve pode nos fazer muito tristes. E quando tristes, penso, devemos experimentar a tristeza, vivê-la. Devemos sim, deitar no meio da tarde enroscados em dois cobertores, chorando por algo que até pode fazer o outro rir, mas que é o nosso choro, o nosso momento, a nossa vontade de deixar o salgado das lágrimas lavarem o nosso rosto.
Tive uma amiga muito querida que foi a pessoa mais piadista e espirituosa que conheci. Vivia rindo. Mas tinha problemas familiares terríveis e havia perdido uma irmã caçula para a leucemia. Na época, como uma boa adolescente ingênua, eu a considerava forte, hoje sei que ela era boa em disfarces. Talvez a dor de existir fosse tão profunda que a maneira mais fácil de lidar com ela fosse a negação. Talvez se ela chorasse, gritasse e reconhecesse que aquilo tudo era uma grande decepção e que ela estava de verdade sofrendo, o sofrimento fosse um fardo mais leve.
Sou a favor de explicar o quanto estamos frágeis.
Sou alguém que avisa a todos da casa quando estou de TPM, pois sei que serei mais irritada, mais chorona, mais furiosa. Ninguém precisa me aguentar, mas tenho o direito de manifestar sentimentos que não posso controlar.
Excluindo os que usam da tristeza como moeda de barganha - como forma de manipular - considero todas as manifestações de vida válidas. De cada singular, pessoal e ímpar vivência.
Não devemos ter vergonha de nos sentirmos infelizes, mesmo ao nos compararmos com toda a infelicidade do mundo. Assim como os sexólogos nos ensinam que sexo é saudável e qualquer coisa é válida dentro de quatro paredes, vale também exprimirmos tudo que nos derruba e abate e dizermos para quem quiser ou não ouvir : sim, estou triste, quero chorar, apesar de ter muito mais do que a maioria das pessoas do mundo tem.
Porque existem coisas na vida que não podem ser medidas.
Alegrias, conquistas, decepções, sonhos, planos. Dores.
São diferentes para cada um.
E se eu quiser chorar, que eu não tenha vergonha.
E que esse choro sirva como remédio para a minha cura.

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