sexta-feira, 17 de agosto de 2012
Amor sem Rótulo
Depois de alguns anos juntos, esquentando os pés um do outro, embaixo do edredom com estampa de corações minúsculos, eles resolveram se casar. Por que não? Sabe, estabilidade que só o papel poderia dar e quando viessem os filhos, a oficialização seria bem vinda, para não ter que explicar muito para as professoras da escolinha.
Assim, em um belo dia de outono, começaram as preparações. Ela escolheu um vestido azul claro, ele alugou um terno bem cortado, pois no seu armário só existiam camisetas e jeans. Nada de igreja, pois cada membro da família tinha sua crença e ninguém queria que o casamento dos dois fosse motivo de discursos empolados sobre religião.
E no dia, lá estava ela com flores no cabelo, ajeitando os arranjos das mesinhas com toalhas de renda. Os pais tinham providenciado tudo com zelo e o salão de festas do clube, que ambos frequentavam quando crianças, estava repleto de velas e seus candelabros, fitas, enfeites, comidas e bebida a vontade.
Ele de flor na lapela, sentado à mesa, bebendo um uísque, ela caminhando entre os convidados, dividindo sorrisos, acariciando ombros.
A música era suave, a luz tremeluzia tênue, das chamas das velas. Todos conversavam. O juíz demorava.
Ela tinha uma necessidade estranha de não ficar parada. Via ele lá, sentado, bebendo sozinho e não conseguia distinguir o que sentia, o que a impedia de ir junto dele, sentar. Ele meio triste, vez ou outra dava atenção para quem sentava, para conversar.
De repente, ela teve uma necessidade imensa de fumar, coisa que não fazia desde o colegial. Pegou a madrinha, fumante de dois maços, e a arrastou para o bar.
Fumou oito cigarros, um atrás do outro, enquanto entornava uma garrafa de champanhe no gargalo.
Olhou para a festa e viu ele de pé, circulando, de copo na mão.
Se olharam nos olhos. Ele sorriu, desmanchando a máscara fria que tinha no rosto.
Ele sabia, ela sabia.
Se deram as mãos.
Foram para casa e fizeram amor. Depois, enroscaram os pés um no outro, embaixo do edredom com estampa de corações minúsculos e resolveram nunca mais se casar.
Fazem trinta anos que estão juntos, os filhos criados, e eles não lembram do dia que alguma professora de escolinha pediu para um deles se explicar.
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