sábado, 25 de agosto de 2012

O Cego

Quando estou sem ânimo para me arriscar atravessando ruas enquanto corro, frequento uma pracinha muito querida, família, bonita, pertinho de casa. Fico lá, feito Hamster na sua roda, dando minhas voltas e contemplando as mães e seus bebês, as casas com seus barulhos e movimentos de vida, os cães podendo correr um pouco, livres das guias. Fazem oito anos que corro lá e um frequentador muito especial sempre me chamou a atenção - um senhor cego. Os cegos que perambulam corajosamente pelas nossas ruas, já me chamam muito a atenção e fazem os meus pensamentos correrem de lá para cá, tentando achar o lugar em que se esconde a resposta para a tamanha força destes seres humanos - nunca a achei e sigo procurando.
Porém, este cego da praça é um homem que, além de toda a força e coragem, possuí algo bonito de se olhar - uma imensa alegria de viver. Na maioria das vezes, ele está se exercitando - bengalinha branca na mão -, completando cada volta junto comigo, porém no sentido inverso. A calçada estreita e os ouvidos atentos fazem ele diminuir o passo quando ouve os meus que se aproximam. A bengala interrompe um pouco a busca frenética por obstáculos e ele educadamente se afasta minimamente enquanto passo. Depois, os alongamentos ao sol, a esticada de coluna em um dos bancos, o usufruir dos sons - sua dádiva. Muitas outras vezes, ele conversa com a vizinhança e todos o adoram. Também em outras, leva seu radiozinho e coloca suas músicas, sentadinho, assobiando.
Ontem, quando pensei que não me surpreenderia mais com a sua alegria e vontade de viver, me surpreendi -  à minha frente lá vinha ele, mão esquerda firme na bengala e a direita segurando uma guia. Na ponta da guia nada de cachorrinho tranquilo, mas um Schnauzer daqueles padrão - enlouquecido, alegre, cheio de energia - tensionando ao máximo a cordinha, testando os limites de um senhor que está sendo forçado a ser ainda mais ágil, na sua tarefa diária de caminhar. Mas ele vem sorrindo faceiro, usufruindo do prazer de caminhar com seu companheiro.
Ah, pensamentos que correm de lá para cá, fazendo meus olhos se encherem de lágrimas, lágrimas que correm pelas minhas bochechas e molham o meu sorriso. Um sorriso que um senhor cego é capaz de arrancar, um senhor que não me vê sorrindo, não me dá respostas, mas me enche de esperança.
E a esperança, este sentimento quente, lindo e vivo, precisa de muitas outras palavras para eu
poder lhe homenagear.

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