quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O Tempo Passa

Meu marido teve uma namorada firme, antes de mim. Daquelas que já compravam ferro de passar, edredom e varal para presentear o namorado, em avisos sutis de "vamos que está na hora". Ela era minha conhecida, conterrânea e estudante do Colégio Farroupilha. Era linda - sempre bronzeada, olhos cor de raposa dourada, sardinhas no nariz e cabelos louros, longos. Além disso, inteligente, boa família, o xodó da minha sogra, que fazia gosto que ela terminasse seus dias passando as camisas do seu adorado filhinho caçula e tomando chá com ela, entre os netinhos sardentos e arteiros. Mas sabemos como a vida é - por mais que façamos tudo para que nossos planos dêem certo, ela vem e muda tudo de lugar. E fui eu, adentrar - como estigiária - as portas da agência de publicidade do rapaz em questão e bagunçar o destino certo da moça casamenteira. Mas ela não deixou muito barato.
Depois de casada, eu soube por fontes próximas ( a própria sogra) que ela vivia ligando para saber do ex-namorado e ficava horas de papo, colhendo detalhes (quem sabe armando um plano?), rindo, colocando conversa fora.
Até o dia do aniversário de 40 anos do meu marido, quando o telefone tocou, eu não atendi, ele atendeu:
"Ahhh, tudo...é...levando...não muita coisa...o de sempre...e tu...?"
Pensei ter ouvido ele falar diferente, meio melódico, doce, atencioso. Achei melhor ver quem era, pegando a extensão do quarto. Pois lá estava ela, destilando progesterona na voz, miando do outro lado da linha. Parabenizando ( e ronronando) o amado ex-namorado. Fiquei furiosa, mas não falei nada, até ouvir ela dizer:
"Bom, tchau que tem gente escutando a nossa conversa, vou desligar".
Contaram-me os vizinhos que meus gritos foram ouvidos lá nos salão de festas, pois iria rolar um churrasquinho.
Mas o tempo passou e ela deve ter conseguido presentear com sucesso outro homem qualquer, pois me-nos deixou em paz.
Domingo passado, eu e ele passeávamos com nossos cachorros e ouço uma buzina. Como eu estava adiante, quase entrando no posto de gasolina para comprar uma água, parei e fiquei olhando enquando ele cumprimentava alguém e se aproximava do carro.
Não reconheci quem era, mas me pareceu  uma amiga da minha cunhada - óculos de grau, cabelos longos mal cuidados e desbotados, peso muito acima do ideal e o carro lotado de crianças.
Como não sou mal educada, voltei e ficamos, os três, em uma conversa animada.
Assim que ela vai embora, ele me fala:
"Se tu soubesses quem era, tu não terias ficado tão animada".
Depois de eu saber que eu e minha odiosa rival - que de raposa, de bela e de rival não tinha mais nada - tínhamos discutido qual seria o melhor filme para os filhos sardentos dela verem, apenas pensei com uma satisfção quase cruel:
"É...o tempo passa...".

Nenhum comentário:

Postar um comentário