quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Prisão


Ele estava preso desde que se tornou um homem e nem lembrava direito como havia chegado lá. Talvez, as velhas coisas - escolhas erradas, falta de oportunidades, fome de riqueza e poder. Já não importava mais e o que importava agora era a falta que ele sentia das coisas normais. Tudo era racionado na prisão - o sono bom, o desfrute do sol, as amizades, a tranquilidade. Ele não podia ter um amor, nem um jardim, nem um lazer. Sua vida era apenas uma sobrevivência diária, seca.
Um dia ele adoeceu e teve que deixar o presídio para poder se tratar. Pneumonia. Resultado da falta de cuidados a que se submetia. No hospital foi bem tratado, bem alimentado, tinha um sono bom. Até esqueceu da prisão. Todos os dias, um sorriso de lábios cor de rosa o ajudava no banho, na troca de roupas, na ingestão dos remédios. E todos os dias ele esperava ansioso pelo sorriso que amolecia um pouco o seu coração feito de pedra. E aquele presidiário condenado ao esquecimento e à solidão descobriu que estava diante do amor. Um amor paciente, pouco exigente que lhe estendeu as mãos e lhe disse que estaria esperando lá fora, para o momento em que ele finalmente estivesse pronto para ser livre. E apesar dele continuar atrás das grades frias e feias, o tempo foi diminuido a sua pena e ele foi aprendendo a aceitar a espera.
E chegou este dia.
Sem muito alarde, sem muito drama, ele deixou o passado para trás. Já não era mais jovem, mas também não era velho e ainda tinha tempo de se modificar.
Foi ter um amor, pegar mais sol, cultivar amigos, um jardim, construir um lar.
Aprendeu aos poucos a escolher os caminhos certos a até entendeu finalmente que a prisão que ele havia construído com esmero - cada ferro, cada tranca, cada cela - nada mais era do que a vida que havia escolhido para si.
E foram sua próprias mãos que o empurraram, cruéis, para lá.

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