terça-feira, 21 de agosto de 2012

Aparências


Todos os dias, ela fazia a mesma coisa. Tirava a bicicleta de cestinho da garagem e ia lá pedalando atrás dos mais fofinhos pães que conhecia. Não era só dela o gosto por pãezinhos no capricho por isso, cedinho a padaria já estava com fila na porta. E todos os dias era a mesma coisa: quando ela estava lá pelo terceiro ou quarto lugar na fila, depois de meia hora de espera, vinha aquela senhora, - calma, de vestido florido e laquê no cabelo - ultrapassando pela esquerda, feito ambulância em engarrafamento. Com seu trotinho de Pônei de circo, passava por todo mundo sem sequer olhar para os lados. Passava à frente de gestantes, de deficientes, de velhos mais velhos do que ela, de crianças, não importava, ela seguia convicta, impassível, para surpresa de quem estava para ser atendido. Abria um sorriso contido e pedia: "Seis, bem clarinhos". Agradecia e ia embora. As pessoas não entendiam nada, mas sabe-se lá, uma senhora tão distinta deveria ter bons motivos, não iria furar por furar. Podia, a coitadinha, ser até distraída. Porém, um dia, enquanto a moça tirava a bicicleta da garagem, resolveu que iria perguntar o porquê daquela atitude diária. Chegando lá encostou a bicicleta e não entrou na fila ficando um pouco antes da porta da padaria. Avista o vestido floreado e a cabeça com quase um metro de cabelo afofado que se aproxima. Antes da velha chegar na entrada ela limpa a garganta e dispara: "Com licença, fico nesta fila, todos os dias, por quase uma hora, e vivo me perguntando o porquê da senhora chegar mais tarde e passar na frente de todo mundo. Posso saber?"
A cabeça estufada e cheia de laquê se ergue e um par de olhos castanhos e doces encaram a moça por alguns segundos, em silêncio. Os doces olhos da velha de repente tornam-se duas bolitas argutas de águia:
"Simplesmente, minha querida, porque eu quero e posso. Eu furo a fila, porque gosto de ver como as pessoas confiam nos próprios olhos e julgam mais do que deveriam com eles. Elas acreditam somente no que vêem e eu sou apenas uma pobre senhora apressada que deve ter deixado o marido convalescendo em casa ou que já está com suas funções perceptivas debilitadas. Eu dou o que elas querem e elas me dão o que eu quero e todos saem felizes - eles por acreditarem que estão fazendo caridade e eu por nunca ter tolerado filas." - diz e sai trotando para dentro da padaria.
A moça não acredita. Fica ali digerindo o que acabou de ouvir da velhota e vai ficando cada vez mais furiosa. Adentra a passos largos a porta, as bochechas feito brasas, o suor brotando da testa, chega resfolegando na fila imensa:
"Por que todos os dias todos nós temos que ceder lugar para esta senhora?" - aponta para a idosa que já está lá com os ombros um pouco mais encurvados do que antes, fazendo seu pedido. Todas as cabeças se viram e quinze pares de olhos a fitam.
"Sim, qual é o problema? Ninguém se importa enquanto ela passa na frente de todo mundo? Ela tem as mesmas condições físicas que muitos aqui e até melhores que outros e ninguém fala nada?" - ela está gritando, o balconista já está saindo de trás do balcão, alguns sacodem a cabeça, outros riem, muitos se indignam com a moça. O padeiro se aproxima e com um gesto suave a encaminha para fora, explicando que ali não é lugar de tumulto, voltando para o meio de seus cacetinhos e se procupando em atender aos pedidos.
A velha sai com "seis bem branquinhos" na sacola, cruza com a moça e dá um sorrisinho diabólico.
Ela, pega sua bicicleta de cestinho e vai embora. Nunca mais volta e fica sem os pães mais fofinhos que conhecia.

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