Ele fica sempre na mesma sinaleira, fazendo malabarismos com imensos pedregulhos. É jovem, tem a pele curtida pelo sol, traços grosseiros, olhos claros, cabelos crespos desgrenhados e o corpo com os membros um pouco encolhidos - lembra muito um homem pré-histórico. Parei no seu local de "trabalho", carregando dentro do carro um casaco que foi do meu marido e que eu guardava para ser doado. Apesar de ser forrado de lã e com acabamento em couro sintético, já tinha algum uso e o falso couro já rasgava em vários lugares. Olhei para fora, esperando o sinal abrir e lá estava ele, de mangas curtas, atirando suas pedras ao alto. Pensei por alguns instantes se seria ele o merecedor do agasalho ou se ele logo o trocaria por drogas. Abri o vidro e o chamei.
Logo que recebeu a jaqueta, a vestiu, saiu dando pulos de alegria, enquanto me acenava e colocava as mãos no coração. Já sou mole por natureza e não preciso dizer que derreti.
Semanas se passaram sem que eu o visse, até o dia em que ele estava lá novamente, em companhia de suas pedras, em um dia frio. Sem o casaco.
Me arrependi de tê-lo dado. Puxa, tantos outros por aí precisando e fui dar logo pro drogado que -conforme eu esperava - vendeu ou trocou por alguma pedra de crack.
Esperei mais alguns dias e vendo ele lá, novamente em manguinhas de camisa, chamei:
"Então, tu vendestes o casaco que te dei?"
"Não tia, é que eu dormia com ele para me aquecer e ele se rasgou todinho".
Arranco o carro, olhando pelo retrovisor para o menino que novamente está com as mãos no coração, me acenando com a promessa de um novo agasalho.
Mal ele sabe que foi ele quem me salvou.

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