quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Amanhecer
"E se eu não tivesse nada a perder?", ele pensou e continuou pensando e se questionando se as suas escolhas seriam as mesmas. Porque ele dicidia muito e até se sobrecarregava por ter que tomar tantas decisões, pois as consequências de tudo que ele fazia não eram somente dele, mas de vários. E do mesmo modo que ele se sentia feliz por estar vinculado a tantas outras vidas e coisas, isso o fazia ser diferente do que ele havia sido quando apenas Um. Antes, lá no começo, ele era um filho, apenas isso. Agora, ele era o filho, o marido, o pai, o gerente, o correntista, o inquilino, o financiado, o dono. Ele tinha muito, mas o muito que tinha o fazia ter medo de, um dia, vir a perdê-lo. E, mesmo com todo esse medo, ele ainda queria mais, porque a vida o empurrava para fente, com as suas mãos apressadas, com a sua urgência de tarefas, datas e conquistas. E ele já não sabia mais se o que fazia era porque queria ou porque deveria.
Então, em uma manhã, em um novo começo, ele resolveu mudar. Fingiu que não tinha nada a perder.
E esta manhã virou uma semana, a semana, um mês e o mês, um ano.
E ele perdeu muitas coisas neste ano, mas ganhou várias, pois tudo que era dele, de verdade, assim se manteve. E ele voltou a ser Um, mas não o antigo. Voltou a ser Um cercado de tudo que ele queria ser e ter se ele não tivesse nada a perder.
Voltou a ser ele mesmo.
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