quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Por favor, me traz um duplo?


Se é coisa que gosto à beça é observar a vida. 
Que tipo?
Animal, mineral, vegetal, selvagem, doméstica?
Todas.
Gosto tanto de observar quanto de escrever e essas duas coisas andam de mãos dadas, pois, mais cedo ou mais tarde, escrevo sobre tudo que vejo.
Os garçons me dão um prato cheio.
De comida e de palavras.
Adoro a maneira como eles interpretam e conceituam os seus clientes através dos pedidos.
Sento com uma amiga em uma mesa de bar para um alegre happy hour.
Ela, mais exuberante, mais alta, mais bonita.
Eu, sacudindo os pés no ar por não ter a constituição certa para um banquinho.
Fazemos o pedido.
Tudo que for mais apimentado, mais alcoólico e mais quente vai parar na frente dela e como gosto de tudo que é mais apimentado, mais alcoólico e mais quente vamos, invariavelmente, ficar trocando os nossos itens na mesa.
"Nanica metida à forte, essa" é o que diz o olhar do moço quando ele vem recolher os esqueletos.
Com uma companhia masculina, então, rolo de rir já antecipando o preconceito dos meninos (e meninas, pasmem!) estampado na entrega dos comes e bebes.
Limonada Suíça? 
Aterriza na minha frente, mas era pra ser na dele.
Café expresso vai pra ele, mas era pra mim.
Salada?
Eu.
Massa de montão?
Ele.
Um chope para ajudar na digestão do imenso prato de macarrão?
Ele.
E dá-lhe troca, troca.
Dá licença?
Tem mulher que dirige pra caramba, dorme depois do sexo, bebe whisky sem gelo, pilota jato, preside empresa e, de quebra, chora nos desenhos da Disney. Gosta de flores na roupa e na casa, cozinha para quem ama.
Tem homem que faz as compras do supermercado, adora escolher os vestidos da amada, cuida das crianças, chora em filmes românticos, gosta de conversar depois do sexo e, de quebra, abre a porta para elas entrarem.
É, perguntar não custa nada.
Esperar pelo improvável é difícil.
Aceitar o diferente, o pouco comum, é quase impossível.
Está na hora de abrir um pouco os olhos.
Não apenas vocês, queridos garçons.
Nós.
Antes de nos acostumarmos aos padrões, ao esmagamento e às limitações da sociedade.
Essa mesma que anda em fila feito bois indo para o abate.

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