terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Capricho


Tinha muita coisa triste naquela organização de pratos dela.
Todas as noites ela alinhava a louça, estampada com diminutas flores, em cima da toalha rendada, comprada em uma remota viagem à Fortaleza.
Tudo aos pares.
As facas de manteiga, as colheres de chá, as xícaras com facetas e alças torneadas.
Uma organização noturna para uma manhã previsivelmente sossegada, onde ambos desfrutariam de jornais, torradas e café.
Ela saberia a quantidade certa de leite na xícara dele, a temperatura ideal, o limite de dourar o pão.
Sabia que acusações veladas surgiriam entre uma mordida e um gole.
Enxergava, enquanto pousava cada item no seu devido lugar, o olhar que receberia por trás de uma cortina de líquido fumegante.
Ela havia se acostumado a existir no tilintar de talheres, no cheiro de roupa lavada, nas golas engomadas e no frigir do alho impregnando o ar com cheiro de aconchego.
Havia se acostumado a sorver alegria sem ter escolhido a forma de alegrar-se.
Estaria tudo certo enquanto tudo estivesse imaculadamente limpo e organizado.
Estaria tudo certo enquanto cada partícula de pó removida tivesse o gosto de alguma coisa perdida para sempre.
Porque tinha muita coisa triste naquela forma silenciosa dela gritar.
Naquela mania de checar, inúmeras vezes, a fechadura da porta.
Estava tudo certo na mesa do café da manhã.
Do almoço.
Do jantar.
A casa estava um brinco, as janelas alvas, o chão brilhando.
Tudo no seu devido lugar.
Dentro dela nada poderia ser encontrado.
Tudo  havia desaparecido atrás da sujeira, bagunça e nojeira à que ela havia se submetido.

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