terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Algodão Doce


Somos nuvens.
Mesmo querendo ser o vento, esse que nos arrasta e nos tinge de nanquim, e nos derruba em forma de temporal.
Somos leves e brancas, densas e escuras, levadas pela vontade que assopra e nos desmancha na hora de sermos alimento à uma boa colheita, salvação para a dureza e aridez da terra.
O sopro que vem de cima e nos movimenta.
O sopro que decide quando tudo começa, acaba e ressurge de outra forma.
O sopro que nos faz água, vapor ou suavidade.
Que nos faz fúria, rendição e tempestade.
A vida é um sopro qualquer.
Que carrega, que movimenta.
Que faz crescer, entumescer, desabar, liquefazer.
Que faz cavalos e bichos engraçados no céu, onde dedinhos gorduchos descobrem unicórnios e boquinhas diminutas tentam abocanhar um pedaço de algum doce que nunca existiu.
Somos nuvens.
E sonhos.
E furacões.
Tsunamis.
Resguardo do sol escaldante.
Alívio.
Brevidade no existir.
Porque esse vento todo nos movimenta.
Nos cria, nos mata, nos ressuscita.
Mesmo sem compreendermos.
O sopro Dele.
Que nos faz tão escuros quanto a noite.
E tão claros quanto um algodão doce.

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