quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Cadê os meus bebês?


Puxa, andei com uma baita falta de tempo de me dedicar à esse dedilhar nervoso e calmante no teclado.
Falta de tempo.
Esse tempo deste instante que teclo.
Esse tempo que jamais voltará para mim.
Nunca.
E falo muito do tempo, pois a maneira como lidamos com ele define a nossa capacidade de ser feliz.
Esses dias, parada em um semáforo, vi uma mulher grávida caminhando lentamente com a mão pousada no ventre expandido.
Sempre amei estar grávida e ter os meus bebês em casa, arrulhando, faziam o sangue das minhas veias virarem pura vitamina para o meu corpo.
Mas esse tempo passou.
Nunca mais ficarei grávida.
Esse contentamento e êxtase não será mais meu, será das minhas filhas, sobrinhas, filhas das amigas, jovens ou nem tanto, mas ainda prontas para transferir os seus genes.
Não posso mais ter os prazeres e realizações do passado, mas devo buscar no meu presente e futuro as compensações e os prazeres de caminhar em uma estrada que já não tem tantas curvas à frente.
Pessoas idosas geralmente são assombradas pela amargura de desejar um presente repleto de gratificações do passado.
Os filhos à volta, a disposição, o marido ativo e saudável, a casa cheia, os ouvidos atentos, a vida profissional nos trilhos, se locomovendo.
O tempo estagnado no tempo em que tudo foi bom ou não tão ruim.
Porque envelhecer é difícil e gostaria de encontrar pessoalmente quem intitulou a melhor idade, para poder dar, no mínimo, um empurrão.
O tempo não é generoso conosco, mas temos que ser generoso com ele.
Compreende-lo, ajustá-lo, encaixá-lo, amá-lo.
Fazemos a própria cama em que iremos deitar no futuro e se ela não for tão macia quanto esperávamos, a culpa é totalmente nossa.
Não do colchão, do vendedor, do travesseiro, mas da nossa incapacidade de saber que a eternidade de tudo neste mundo é ilusória.
Saber envelhecer é saber que não poderemos mais ficar grávidas.
Mas que podemos ter a coragem de experimentar o que ainda não experimentamos.
Eu odiava sushi e rúcula, hoje os amo.
É isso.
Construir nesse tempo que trata de destruir os segundos, minutos e horas da nossa vida.
Ser valente é saber que se é.
Não que se foi.
A fazer a vida ser leve.
Para si e para os outros.

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