segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Contratempos


Sou filha de pais que lidavam muito mal com contratempos.
Muito mal ao ponto de, aos dezesseis anos (dirijo desde os 14), eu sair correndo de dentro de um Fiat 147 amarelo, depois de ter, pela primeira vez, acertado a coluna do estacionamento do prédio, em uma ré.
No momento que senti a traseira cedendo ao concreto, tive uma visão sobrenatural de dois rostos contraídos, com olhos injetados e duas bocas que mostrariam a minha incapacidade de dirigir, através de algumas nada bonitas palavras.
Tenho vários outros episódios, mas não vejo porque citá-los.
O que desejo é mostrar que, invariavelmente, copiamos os exemplos dos nossos progenitores ou os repudiamos e, no meu caso, passei a encarar com uma leveza absurda as pequenas mazelas do dia a dia.
Se belas taças se quebram e saímos no prejuízo, é sinal de que andamos comemorando a vida com os amigos.
Se a porta do nosso carro aparece com um ovinho, significa que estacionamos em algum supermercado, shopping ou restaurante e, que bom, temos saúde para sair por aí dirigindo, comendo, comprando, vivendo e o nosso carro está aqui, nos servindo.
O melhor vestido rasga? Temos condição de ter um melhor vestido? Então, por favor, paciência.
Dia desses, meu marido me disse que a forma ligth de eu encarar os contratempos beirava o retardo mental.
Discordo veementemente.
Retardado é quem se maldiz por perder algo, que é incapaz de perceber que as coisas não se estragam, não somem, não quebram, não se desgastam se não existem mãos para manuseá-las e onde existe mão, existe um corpo que está vivendo, pois morto não estraga nem perde nada.
E, a propósito, morto não tem mais tempo, por isso nem nada que vá contra o mesmo.
Dinheiro vai, dinheiro vem, vão-se os anéis e ficam os dedos.
É chato ter avarias em bens materiais queridos?
É.
Gosto de chutar uma pedra e lascar meu amado e novíssimo sapato de verniz?
Em absoluto.
Vou estragar o meu dia, quiça semana ou mês por isso?
Não. Vou no sapateiro.
Vou no supermercado, na fruteira, no cinema, no bar, na pizzaria de sapato arrumado e um gasto à mais.
Apenas isso.
Pois daqui há dez anos, esse sapato estará enterrado na minha lembrança.
Porém, a forma de eu encarar a vida e as consequências dela, não.

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