sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Somos Selvagens


E a gente acaba sobrevivendo.
Mesmo pensando que, depois de algumas lacerações, vamos, finalmente e infelizmente, sucumbir.
Mesmo depois de ouvir o que esfaqueia sem corte.
Mesmo depois de saber que existir pode ser cruel, mesmo quando a crueldade não acontece no mesmo nascer do sol que vemos, todos os dias.
Vamos sobreviver porque respirar é algo nosso. E é quase impossível certas vezes, mas mais impossível é deixar de usar as pernas para pular os riachos, quando as temos pregadas no corpo.
E a gente acaba sobrevivendo.
Nem sempre de maneira exemplar, mas com os recursos que nos cabem, na intenção de fazer tudo ser menos dolorido.
Porque viver não é nada fácil desde que inventamos esse monte de coisas para usar, mas que servem para nos escravizar em uma escravidão sem correntes.
Esse monte de coisas que precisamos.
Essa dose de veneno diária que nos mata tanto quanto nos fortifica.
Levamos adiante em silêncio, pois seríamos rudes ou indelicados.
Fechamos os olhos, o coração e as vontades, pois seria incorreto e não civilizado.
Somos onças criadas em cercados feito bois.
Sem a chance de escalar as árvores e lamber as feridas dos tombos.
Tudo é não dito, protelado.
Tudo é culpa, raiva contida, fúria domada.
E a gente acaba sobrevivendo.
Aos ataques subliminares desse ser selvagem que pasta no campo.
E que acaba virando um monstro.
Pois não pode existir como fera.
E que somos todos nós.

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