segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Lições


A nossa felicidade jamais pode sacrificar a felicidade alheia. Jamais.
Se precisarmos esmaecer a alegria de viver do outro, para que a nossa possa reluzir feito sol de verão, estamos fabricando a felicidade errada.
E, se não nos importarmos em impor sacrifícios em prol de nossos interesses, os nossos valores estão equivocados.
Uma Yuka, certa vez, me ensinou muito sobre egoísmo.
Sim, aquela frondosa planta de tronco rugoso e folhas lineares e eretas que se projetam como espadas verdes, apontando para o céu, em forma de roseta.
Um dos meus grandes prazeres é degustar o espetáculo que um pequeno jardim pode proporcionar, todos os dias.
O meu coração se enche de alegria ao ver o incessante desfolhar, brotar, renascer, farfalhar das vidas que são silêncio e arrebatamento.
As plantas nos dizem muito sobre elas mesmas em seus diversos ciclos e fases.
Sentar e olhar para o jardim, sempre foi uma maneira de eu restaurar forças.
Principalmente, admirar uma das plantas mais enérgicas ao crescer, impetuosas ao florescer e fortes ao existir.
A Yuka.
A cada primavera ela aumentava, crescia, espalhava brotos pelo caule grosso, se jogava ao sol e ao vento com a coragem que não temos.
Resistente, verdejava depois dos temporais, se tornando mais linda e saudável.
Olhar para ela me fazia um bem tão enorme que a coloquei (com a ajuda de várias mãos) dentro de casa, para poder melhor desfrutar do meu contentamento.
A primeira folha a cair foi a primeira palavra não dita de que as coisas não iam bem.
Fingi não me preocupar, afinal eu sabia que Yukas podem viver dentro de casa.
Ela não gritou na forma de um desfolhamento histérico, nem curvou o tronco rijo em protesto. Não morreu, não sucumbiu.
Mas perdeu a exuberância no existir.
Se contentou com a privação, continuando viva.
Mas jamais tão bela.
Eu tinha a alegria de vê-la mais, mas a tristeza de vê-la sendo apenas uma parte do que era.
Um dia, incandescida pela consciência do quão egoísta eu havia sido, arrastei-a sozinha para a rua. 
Com remorso, vi  o ressurgimento lento da sua alegria.
Pois a recuperação foi lenta, como ensinamento daquelas coisas que os homens nunca nos ensinam.
Enquanto escrevo, posso vê-la pela janela, sendo o que sempre foi.
Brilhando em um dia de sol.
Na rua.
Como uma Yuka deve viver.
Sem os caprichos de quem a alimenta.
E a ama.

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