sábado, 1 de novembro de 2014
A vingança, a retaliação e todos esses prazeres amargos.
Fui ver pela segunda vez o ótimo Relatos Selvagens.
A primeira, seguindo indicação de uma pessoa que admiro e a segunda para levar pela mão quem eu amo, para que possamos dividir as lições que um bom filme ensina.
O enredo é pura vingança.
Selvagem, cega, obcecada.
Não de ninguém especificamente, mas um basta, uma tentativa de libertação de uma asfixia da vida e de suas injustiças diárias.
Como o clássico Um Dia de Fúria, os atos de raiva não são necessariamente dirigidos à alguém especificamente, à um nome e um endereço, mas à um contexto onde calha de estar um sujeito ou vários, pela frente.
São surtos de cólera bem justificados pela causa, mas desmedidos no teor.
Levante a mão quem nunca teve vontade de descarregar (fantasiosamente) uma AK-47 no vizinho, no marido, na atendente de loja, no motorista retardado, na mãe, no pai ou em todos juntos (exceto e sempre exceto nos filhos, essas pestes que podem tudo)?
O filme trata, comicamente, desses pequenos surtos de cólera.
Se ri muito e se pensa um bocado.
Os atos revolucionários e as guerras são um exemplo de que, de vez em quando, um descontrole faz bem à humanidade.
Se cresce na dor do drama extremo, mas sempre existirão sacrifícios.
Quem se revolta com as injustiças mundanas e resolve arrancar na marra a passividade bovina dos olhos, ganha e perde.
Ganha por fazer outros tantos ganharem através dos seus atos, mas perde porque ninguém, absolutamente ninguém, sai ileso de medidas tão radicais.
Em dois momentos do filme parei de gargalhar para refletir.
Um quando o senhor, na fila dos guichês de um pátio de recolhimento de carros guinchados, conversa com o personagem injustiçado pelo sistema, que teve seu carro injustamente guinchado seguidamente e está prestes à se descontrolar. Ele diz, mais ou menos, isso: "Realmente isso tudo é muito injusto e sabemos que é uma máfia para roubar o nosso dinheiro, mas ou você trabalha um pouco mais e paga ou arrebenta o seu coração de tanta mágoa. Eu tenho muitos motivos para viver, quero velejar com meus netos, viajar."
O outro momento é quando a esposa desse mesmo sujeito, que está prestes à explodir um similar argentino do nosso Detran, lhe fala que a sociedade não vai mudar e ele não vai mudar, portanto está pulando fora do casamento.
E é isso.
É melhor ter razão ou ser feliz?
É melhor engolir alguns, vários sapos, com vinho tinto ou quebrar todos os pratos que fazem parte do nosso jogo de louça?
Ranger os dentes só os torna mais fracos.
Se estamos realmente dispostos à morder, se arrancar sangue de alguma carne é a nossa motivação para continuar à viver, que sejamos realmente selvagens, corajosamente revolucionários, vingativos, justiceiros.
Caso contrário, ficar postando "atos de revolta" no Facebook, ficar ameaçando, reclamando, alertando e enchendo o saco, só servirá para nos tornarmos extremamente chatos.
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