quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O Café


Ele estava recém separado e andava no mercado das saias, por assim dizer.
Circulava pelas redes de relacionamento como lobo no inverno, farejando.
Até que a encontrou.
Ela, antiga namoradinha do colégio, mãos dadas e selinho eram as memórias amorosas de ambos.
O perfil dela no Facebook era aberto ao público e ele pôde dar uma boa conferida no que o tempo tinha feito com as suas curvas.
Nada mal, nada mal mesmo, inclusive ele, o tempo, tinha talhado melhor certas redondezas da carne.
Rosto ainda agradável, cabelos ainda compridos, olhos ainda com o brilho e a esperteza de olhos de corsa.
Tudo Ainda, exceto um pequeno detalhe.
A solteirice.
Era casada e bem casada, diziam as fotos de seus diversos álbuns virtuais.
Mas, conversar com ex pode, não pode?
Ainda mais (principalmente por isso) quando o passado foi tão pueril e as coisas foram suaves, os toques e os beijos brandos.
Ele começou devagar.
Um convite para amizade aceito.
Curtidas, comentários pertinentes (nas fotos dos filhos e do casal), risadinhas kkkkk e silêncio na hora certa.
Ela, depois de tanto tempo, ficou curiosa por saber o que ele, o tempo, tinha feito com ele, o ex.
Mas diferente dele, o ex, ela queria saber se ele estava feliz, casado, com filhos, realizado nessa vida de anos que passam demais.
Uma amizade virtual sem riscos.
Para ela, pois ele ia devagar, mas focado no que viria a seguir.
E o que veio a seguir, foram mensagens inbox, com comentários mais íntimos e curtidas mais escancaradas do que aquela mãozinha de polegar para cima.
Os kkkk viraram carinhas sorridentes, carinhas com os olhos feito corações, bichinhos fofos, carícias subliminares.
Para ela, o limite tinha dado o ar da sua graça, faça-me o favor, e era feliz, muito feliz para riscar fora da caixa.
Para ele, mais um passo dado, mais uma pegada na neve que se aproximava de outra pegada mais frágil e arredia.
O ex não entendeu que a ex estava sendo condescendente nos saltitos de macho alfa dele, mas que, não senhor, não era uma abertura da toca e um convite ao banquete do lobo.
Ele, já sentindo o cheiro fresco da carne, resolveu mostrar os dentes e salivar um pouco mais, afinal, antecipava a sensação gostosa de uma barriga cheia.
A convidou para um café.
Todo mundo sabe que um café desfrutado por um homem solteiro (e na caça) e uma mulher casada (e com a intenção de permanecer casada) coisa boa não há de ser.
Ela não era nenhuma debutante e ele nenhum puxador de barbante com um caminhãozinho na outra extremidade, portanto ele fez o convite, acrescentando um porém, no final, para tudo ficar menos óbvio.
"Vamos tomar um café? Sem compromisso."
Ela odiou esse convite que fingia ser o que não era.
"Sem compromisso" significava o que, homem de fé? Sem necessidade de coito iminente pós café? Sem necessidade de pagar a conta? Sem horário marcado? Sem casamento marcado para dois dias depois? 
Já cansada de tanto assédio disfarçado, ela resolveu marcar o café.
Ele lambeu os beiços. Colocou a melhor roupa, borrifou o melhor perfume no peito, lascou uma pomada nos cabelos e no dia e hora marcados foi, cantarolando Cat Stevens enquanto dirigia o seu Mercedes 270 financiado.
Esperou por duas horas, tomou quatro cafés, esculhambou o cabelo com pomada (de tanto esfregá-lo sofregamente), pagou a conta, foi embora e riscou ela da sua lista de amigos no Facebook.
Partiu para um próximo ataque, fazer o que?
Ela, aliviada, no final das contas até que desfrutou do Café sem Compromisso.
Sem Compromisso de Aparecer.




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