terça-feira, 4 de novembro de 2014
Não provoca que eu mordo.
Andam me acusando (justamente) de indocilidade.
Sim, senhora, estou passando por uma fase pessoal difícil.
A minha fase pessoal difícil.
Sem muitos detalhes, pois já escancaro a minha vida o suficiente nessas palavras jogadas no branco de uma folha.
Quem tem sede busca a fonte de água.
Quem está indócil deve procurar a fonte de docilidade.
Onde, cidadão?
Se eu andar quatros passos fora do perímetro da minha casa, onde ainda (graças à Deus) consigo me alimentar de coisas doces como flores, bichos, filhos, ararinhas, sabiás, cheiro de grama molhada e horizonte aberto para o pôr do sol, como encontro essa fonte açucarada para adoçar o meu ranço?
Onde, por favor?
Na boa educação das pessoas? Nas gentilezas diárias?
Nas boas notícias de quem ninguém mais caça, rouba, mata gente, afoga filho, queima floresta? Na política? Na esperança de um país sério e justo?
Onde, por favor?
No altruísmo das pessoas, no excesso de riso e boa vontade?
Falem, pessoas adocicadas, de onde vêm tanta doçura?
E olha que eu tento!
Já me disseram que sou feito bola de borracha que se deforma, mas volta à forma rapidinho quando a pressão afrouxa.
Mas andam tentando espetar coisas afiadas na minha redondeza perene.
Porque fio afiado não falta.
E, para me defender, estou na fase da Jaguatirica, bicho arredio, solitário.
Antes a solidão do que a extinção.
E quem quiser me acusar de ser selvagem e indócil que me dê uma boa razão para ser alimentada pela mão de um homem.
Aquela que afaga e que mata.
E nunca sabemos qual opção será o cardápio do dia.
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