sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Sombras


Ele encontrou-o assim.
No meio de um nada existencial.
Em meio à dor da miserabilidade humana.
Respirando.
Mas com a cabeça submersa.
Sentado no breu da noite.
Rindo de dois cães esquálidos que se divertiam torturando um ratinho branco, daqueles de laboratório.
O visitante não se surpreendeu com a crueldade, pois já tinha visto coisas piores.
Não se surpreendeu tampouco quando o homem vestido de escuro, arremessou um dos cães contra o muro.
Apenas tratou de acariciar cada costela intacta, silenciando o ganido mais de tristeza do que de dor.
Esse, o visitante levaria mais rápido, o abrigaria ainda cedo e faria dele, e de muitos outros iguais, uma ausência de choro.
Mas não ainda, eles teriam que suportar mais um pouco.
Já o homem, ele acompanharia por muito tempo.
E veria ele virar camundongo em cada tortura impelida por tantos, veria ele ser arremessado diversas vezes contra paredes e muros.
Veria os seus passos sulcando o chão com pisadas de piche, mas sem rastros, nem marcas.
O agasalharia no frio extremo, mas apenas o suficiente para não permitir que ele descansasse.
Não era tempo de descansar, mas de entender.
E se o entendimento e a compreensão não viessem, o visitante viajaria sozinho.
Se a mão que ele pousava no ombro não restaurasse as fissuras, não consertasse as rachaduras, ele partiria sem companhia.
E o encontro deles não seria breve.
Mas, um dia, o homem olhou para a mão que não enxergava.
Mas enxergou o que sentia.
O que era.
Chorou com o peso de existir na crença de não crer em nada.
E cansado, arrependido, restaurado.
Partiu.
Não sozinho.
Pois ninguém parte sozinho.
Apenas os que não conseguem ver além da escuridão.

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