sexta-feira, 31 de outubro de 2014
Aberração
O que havia de errado com ele?
Porque algo deveria haver.
Ele que cumprimentava vizinhos com alegria e tinha medo de que as árvores tivessem sede em um verão escaldante e seco.
Ele que devolvia o dinheiro de um engano, no caixa da padaria.
Que agradecia quando recebia uma gentileza, sorria para desconhecidos e procurava ser sempre pontual em seus horários.
Fiel às suas palavras.
O que havia de errado com ele?
Que ainda acreditava no correto, no íntegro.
Ele que se despia de tudo para poder ter a chance de se vestir do outro.
Que chorava ao ver gente atirada nas ruas feito entulho. E estranhava como tantos passavam como se passa por latas de lixo, torcendo o nariz e virando o rosto.
O que havia de errado com ele?
Que feito bola de borracha, se amassava com as dores, para voltar à ser redondo no enfrentamento da vida.
Ele que olhava mais para as estrelas do que para o chão e por isso, vez ou outra, tropeçava.
Colhia flores para a amada e regava, todos os dias, o coração de quem amava.
Mesmo se estivesse cansado.
Mesmo se soubesse que a maldade ronda e espreita na tentativa de quebrar o sagrado.
O que havia de errado com ele?
Que apesar de tão lindo por dentro não se encaixava no mundo dos homens.
O que havia de errado com ele?
Que não gostava de matar nada e alimentava os sabiás no jardim pequeno, mas repleto de flores.
Que vivia, sentia, amava e acreditava em Deus, em sonhos e em anjos.
Mas que para todos era como se não tivesse nada.
Pois onde os pés pisam, massacram e pisoteiam, o anormal, o diferente e o selvagem é quem tem asas.
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