quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Perdidos no Espaço


Eu tive uma infância bastante feliz.
Os meus problemas começaram simultaneamente à minha necessidade de usar o primeiro sutiã, mas antes disso usei todas as cartas do baralho criança.
As pessoas ainda não haviam sucumbido à total selvageria e a política era algo respeitável e digno, onde as exceções eram as falcatruas e os desvios de dinheiro em benefício próprio. Por isso bandido ainda ia para trás das grades e estuprador sumia no fantástico mundo chamado Traseira de um Camburão.
Então, fui pirralha de pele bronzeada de tanto curtir ao sol, pilotando sozinha, nas calçadas da Mariland, o meu velotrol, ensandecida da energia e da alegria de uma menina de seus cinco anos.
Guardo os cheiros da minha infância como se fossem as minhas mais preciosas jóias e devo às minhas lembranças a maneira otimista de encarar a vida.
Dizem por aí que não se vive de passado, mas o meu passado infantil já me salvou dos precalços da minha vida adulta.
Procuro dentro de mim a alegria simples das pequenas coisas que fizeram mágica na minha alma e consigo colorir bastante um dia acinzentado.
Cada um se salva da sua maneira.
Eu ainda me recupero dos açoites da vida gastando as pernas ao sol forte, me enchendo do suor que lava por dentro e retira bem mais do que água e toxinas do meu organismo.
Pés descalços são como remédio para dor de cabeça.
Saber que vou comprar o meu doce preferido faz eu deletar o teor salitrado de muitas palavras que ouço.
Abrir um pacote de uma boneca que ganho ou compro para a minha coleção, limpa as minhas artérias e renova o fluxo de sangue das minhas veias.
São tantas as coisas...
Cheirar a pele depois dela ter sido exposta ao sol, dormir à tarde enroscada em um edredom, se jogar no chão com meus bichos, assistir à um filme comendo, boiar na piscina, usar uma roupa nova.
Ir na praça, sentar em um balanço, olhando as crianças se rebelarem contra a internet, subindo em árvores e jogando bola.
São tantas as coisas...
Porque, às vezes, é preciso se abstrair e ignorar muitas coisas em prol da preservação do nosso caráter.
Como criança que não sabe que, enquanto ela pedala, muitos matam, enquanto ela ganha um presente outros morrem de fome.
É preciso, vez ou outra, ser egoísta, tapar os ouvidos e os olhos e dar carinho ao próprio coração.
Renová-lo com a crença ingênua, mas nem sempre errônea, de que o nosso maior problema é igual àquele, onde a nossa aflição era devida aos tripulantes da série Perdidos no Espaço nunca voltarem para casa. 
E onde a solução era simplesmente desligar a televisão e sair correndo para a rua, onde amigos de verdade nos esperavam, não importando qual tempo fizesse lá fora.

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