terça-feira, 14 de outubro de 2014
In My Shoes
Que exercício difícil se colocar no lugar do outro.
Mas absolutamente fundamental para o relacionamento, qualquer que ele seja, fluir em paz.
Magoamos, somos magoados, sofremos loucamente com os erros não intencionais nossos e dos outros.
Porque é doloroso vermos do ponto de vista alheio e percebermos que não somos assim tão louváveis e altruístas como pensávamos.
É praticamente infalível o entendimento e a compreensão mútua quando vestimos a pele de quem, por algum motivo, anda nos dando uma dor de cabeça danada.
Pode acontecer de percebermos que estamos agindo certo, mas, infelizmente, o placar de acertos é menor do que o de erros.
Que fique claro que é preciso estar se relacionando para que esse exercício dê certo, pois vamos ter informações de vida que embasarão a nossa perspectiva do outro. Em desconhecidos fica difícil saber se aquela indelicadeza foi por pura falta de atenção devido à problemas pessoais graves ou foi apenas grossura mesmo.
Já magoei muito sem querer porque alguém simplesmente entendeu o meu posicionamento como arma engatilhada.
Aos quinze anos eu tinha uma imensa turma de amigos na praia.
Éramos inseparáveis.
Como em toda a turma adolescentes, onde os hormônios estão em rebuliço, acontecem paixonites agudas.
Comigo não foi diferente.
Ele era irmão dela, ambos parte da gangue. Sempre tive quedas por loirinhos e os dois eram, o que se chamava na época, loiros melados.
Faço um à parte aqui para explicar uma tendência de época: o Morro do Farol em Torres, praia que eu frequentava, era o motel aberto da gurizada e todo mundo sabia disso.
Naquela época também todo o menor de idade dirigia então, depois uma semana de beijinhos e mãozinhas dadas (ressalva para o fato que larguei as bonecas- ou nem tanto - aos treze anos), o passeio noturno de carro começou à tomar uma direção que, instantaneamente, botou meu coração a saltar pela boca.
O Morro do Farol.
Já na subida pedi para voltar.
Meu pedido foi recusado com o argumento de que iríamos ver as estrelas.
Segui com minhas lamúrias, todas devidamente ignoradas, até ele estacionar o carro.
Fechei a cara e virei pro outro lado.
Todos os lados repletos de carros e vultos, para meu desespero.
Foi quando ele começou a reclinar os bancos. O meu e o dele.
Pirei.
Pulei para fora e disse para ele me levar para casa imediatamente, algo que ele relutou um pouco, mas cedeu.
Terminei o namoro no outro dia.
Ele, se sentindo injustiçado, tomou um porre e entrou em coma alcoólico, para comoção da turma. Eu? Virei bandida.
Ele nunca mais me olhou e minha fama de Partidora de Corações Mirim correu o mundo.
Até hoje sou amiga da maioria, mas ele me ignorou para sempre.
Aliás, anos depois, um dia, olhou bem na minha cara e disse: "Um dia tu vais pagar tudo o que tu fazes para os outros."
Acreditem se quiser, fiquei anos remoendo essa frase com uma dor aguda no peito. Não que tivéssemos tido um grande caso de amor, mas o ódio que eu fomentei, sem intenção alguma, me assustou e me atingiu.
Quantas coisas podem ser diferentes se nos colocarmos no lugar do outro.
Ele poderia ter visto que eu era apenas uma menina e pulado fora, se o negócio dele fosse apenas outro. Ou poderia ter entendido e poderíamos ter tido uma história juntos, se o negócio dele fosse mais. Sem comas alcoólicos, sem raiva, sem ressentimentos.
Os pontos finais são a característica de quem nasceu para ter razão.
Assim como a frustração.
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