sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Não quero peças que não se encaixam


Devemos respeitar as pessoas como elas são.
Tenho aprendido isso, pois somos todos o exemplo da mais absoluta imperfeição.
Temos que conviver com os nossos semelhantes, cultivar amizades, interagir.
Mas até que ponto?
Não estou perguntando para enfeitar ou dar ritmo ao texto, estou perguntando por estar em um período em que perguntas dançam na minha cabeça feito aquele povo, naqueles festivais de tecno, onde os dj's (e um punhadinho de ácido) fazem os pés saltitarem no mesmo lugar.
Minha irmã de coração e não de sangue, a cada almoço semanal e invernal em que nos encontramos, aparece com uma pele de bicho diferente, jogada no corpo.
Ela sabe o que penso, mas nunca me abstenho da pergunta : "Qual cadáver temos hoje conosco?"
Ela ri, me diz que não consegue ver mal naquilo, que bicho é bicho (apesar de tratar feito nenê a Basset chata feito um piolho) e deixamos pra lá, pois tem muito vinho na nossa frente e outras tantas confissões cabeludas.
Nesse caso tem muito amor envolvido o que torna difícil e minha decisão de não querer conviver com alguém que simplesmente me afronta com uma atitude tão desprezível. Então finjo que aquilo peludo nunca caminhou pela terra, pois sei o quão generosa e maravilhosa essa pessoa é, apesar de não entender o fato de um animal não merecer perder a vida para se tornar enfeite.
Mas quando não amamos, apenas gostamos muito?
Tenho um amigo, que adoro, que me contou que matou à facadas um ouriço do mato, após ele se defender do seu bebê Rotweiller que deve pesar uns cinquenta quilos. O animalzinho, acuado, se escondeu no mato e ele foi atrás com muita raiva no coração e fez o que fez. O cão? Ah, esse tem veterinário. O ouriço? Deve ter deixado viúva e filhos no mato.
O meu "adorar", à partir desta notícia, sofreu um grave acidente. Assim como a imagem do rapaz que posta fotinhos de gambás comendo no seu jardim. Afinal, a mão é a que alimenta ou a que esfaqueia? O olhar é doce e meloso ou furioso à ponto de se descontrolar ? Não matou uma barata, diga-se de passagem. 
Outra.
Simplesmente a adoro.
Lê tudo o que escrevo e comenta, me ajuda, me ampara, me ouve (pelo amor de Deus, me ouve!!!), somos amigas há mais tempo que qualquer outra minha amiga. Tomamos café, rimos, mas ela sempre dá um jeito de tripudiar em cima da minha fé.
Ateia, não crê nem em vida após a morte, logo eu que queria encontrar com ela na outra vida.
Pois é.
Como fica?
Cansamos de ver atitudes medonhas de nossos filhos, maridos, pais, mas simplesmente se engole como remédio amargo e se espera que, talvez, um dia, quem sabe, as coisas mudem.
Mas se aceita. Desde que não nos machuque à ponto de se tornar ferida exposta, pois vamos ter que estancar o sangue para não morrer de tristeza hemorrágica. 
Agora, como se faz quando estamos lidando com...afetos?
Estou em uma fase tão intolerante à certas e várias coisas, mais do que esse modismo de lactose e glúten.
Já disse mil vezes que não me considero perfeita, longe disso, mas, talvez, por isso mesmo eu precise de peças que se encaixem.
Caso contrário, posso parar na lata do lixo como todo o quebra-cabeça que faltam peças e onde jamais se enxergará um belo cenário.

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