domingo, 19 de outubro de 2014
Quer aprender uma receita boa?
Vou lhe dizer uma coisa.
A vida pode ser linda, doce, engraçada.
Pegue uma cola bem boa.
Daquelas que colam cara rachada.
Junte os pedaços dos sustos e de tantos absurdos e cole o sorriso estragado.
Lixe, com lixa bem forte, as asperezas dos outros e jogue fora o pó do que foi lixado.
Passe à ferro os sonhos amassados e guardados.
Aspire a poeira dos cantos de adulto e deixe aparecer a criança que estava tomada de teias de aranha.
Mas mantenha refrigeradas todas as coisas boas de ser maior de idade, pois garanto, panelas velhas fazem os melhores ensopados.
Bata no liquidificador uma porção de prazeres, várias doses de esperança, algumas de "lixe-se", outras mais de "adeus culpa", várias de amor e perdão até obter uma mistura homogênea.
Beba assistindo ao pôr do sol, com a mão de alguém que você ama apoiada na sua coxa.
E se não tiver ninguém, ponha a sua própria mão naquele jeans que cobre a sua perna e fique feliz de ter uma mão, um jeans, uma perna, um par de olhos para ver aquela velha bola que vai embora (até amanhã), vermelha, azul e roxa.
Abaixe o fogo quando a raiva for muita, pois o sabor da vida pode ficar amargo e com fogo alto quase nenhuma receita dá certo.
Filtre o que dizem à seu respeito. O bom e o ruim, pois a vaidade estraga tanto quanto o ressentimento e o que somos de verdade só nós sabemos.
Saiba que o microondas é rápido, mas não doura nem faz ficar crocante.
E que a melhor fórmula é ir adiante.
Sempre vão emperrar as engrenagens, falhar os motores, danificar a correias.
A cola até pode vir fraca, em determinados dias.
A lixa pode perder a intensidade.
Tudo pode parecer fazer parte de um grande complô para testar a nossa capacidade.
De cozinhar.
De construir.
De existir.
Mas sempre vamos sentir o doce, ver o bonito e lamentar o partir.
Mesmo com tudo.
Apesar de tudo.
E não conheço ninguém vivo que tenha esquecido de sorrir.
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