domingo, 5 de outubro de 2014

O Voo


Já escrevi nesse meu Diário Particular Público que tenho pensado muito na vida.
Na vida que me resta.
Uns quarenta anos, por aí.
Com sorte. E com sorte, também, será a minha dead line, o meu Adeus à esse turbulento mundo.
Então, me resta fazer uma balanço de tudo que me fez feliz, que me fez mal, das minhas escolhas e tratar de criar um manualzinho básico de respeito à mim mesma, algo que não fiz muito em todos esses anos.
Me vem agora à cabeça algumas formas de autossabotagem que usei no passado, todas muito empenhadas em me fazer infeliz com uma eficácia incrível. Claro que eu não sabia disso, mas agora sei.
Ah, sei.
E, por incrível que possa parecer, o episódio de ontem simboliza bem o que quero para mim. 
Há um ano, quando fui recolher a minha calopsita (que foi voar em outras dimensões este ano, depois de 17 anos bem vividos, quero acreditar) da sacada, eis que encontro outra igual, pousada na gaiola, comendo a ração do potinho, com a cabecinha enfiada entre as grades.
Não tive dúvidas, a coloquei para dentro.
Neste ano que transcorreu, ela conviveu pacificamente, às vezes nem tanto, com a outra e quando a outra morreu, ela passou a não ter mais uma colega de quarto para dividir as cantorias do dia.
Abro um parênteses para deixar aqui registrada a minha dualidade em relação à manter pássaros em gaiolas. Já tendo resgatado um da semi-morte, na sarjeta, e vê-lo feliz cantando, faz-se o questionamento liberdade x cativeiro inevitável e o quanto existe de crueldade em se soltar um pássaro silvestre, que se tornou doméstico, ou aprisioná-lo.
Continuando.
Ontem o meu coração deu mais um passo em direção à verdade.
A minha verdade.
Mais uma vez outra calopsita pousou na gaiola. A minha (que tinha feito a mesma coisa, vejam bem) enlouqueceu. Abria as asas, fazia dancinhas de acasalamento, virava o pescoço para ver a intrusa, colocava a cabeça para fora das grades.
Depois de ficar ali, olhando e pensando, 
com medo, apreensão, alegria, euforia e dúvida, tomei a minha decisão.
Ao invés de colocar a nova visitante para dentro, abri a gaiola.
O voo que testemunhei não foi de curiosidade.
Foi de fuga.
Já soltei, sem querer, outros pássaros e eles raramente voam às cegas. Eles vacilam, dão passinhos ( muitos meus ficaram caminhando no jardim até serem resgatados), analisam o cenário.
Ela, não.
Se precipitou para o azul do céu, como um peixe que se vê livre das redes de pesca.
E não voltou mais.
A gaiola ficou ali, aberta e está servindo de hospedagem para a visita que não arredou pé das proximidades e dos potes de comida, mas ainda a mantenho aberta.
A liberdade de ser é, muitas vezes, dolorida, assustadora no início. 
Confundimos conforto, acomodação, educação ou seja qual nome tiver, com uma constante vigilância dura da nossa verdadeira essência. 
Não quero mais isso para mim.
Quero dizer e ser o que sou e deixar bem claro que abro concessões, desde que as mesmas não me machuquem, não me engessem, não me violentem.
Não tenho mais força de sorrir para agradar, de engolir desaforos sem responder.
Preciso dizer o que penso, com educação e sinceridade em níveis iguais, assim como preciso do ar para respirar.
Não existe algo que me deixe mais furiosa do que a vitimização. Pessoas que se sentem injustiçadas e infelizes por escolhas delas mesmas e ainda tem a coragem de usar o seu "sofrimento" como forma de chantagem e barganha.
Por isso, a partir de agora (ou talvez já há um certo tempo) vou escolher a liberdade.
A liberdade de ser eu mesma.
Porque me doeram demais as horas seguintes à abertura daquela gaiola.
Mas, tenho certeza, teria me doído mais lembrar, todos os dias, do desespero daquelas asas, daqueles olhinhos negros e redondos.
Não sei se ela está bem, mas acredito que sim.
Porque uma vida feliz nem sempre é a mais longa.
Mas sempre é a mais plena.

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