quarta-feira, 22 de outubro de 2014
Tá pronta pro biquíni?
Recebi um folder de uma clínica de estética com essa pergunta.
"Tá pronta pro biquíni?"
Primeiro respondi que não, depois fiz uma bola de papel e arremessei (com acerto!) a pergunta e todo o resto na lixeira da cozinha.
Foram poucas as vezes que estive pronta pro biquíni.
Aos doze anos (doze!) morria de vergonha do meu corpo, sabe-se lá porque.
Tive uma trégua dos treze aos quatorze, quando descobri ser portadora de ovários policísticos, o que leva ao aumento de peso. Portanto, fui uma adolescente rechonchuda até os meus 20 anos (com um período de magreza aos dezessete, onde o cardápio era só ovo cozido).
Mesmo tendo começado a parir ao vinte e três, os meus hormônios ficaram menos revoltados com a dona e me deram um bom sossego, aliviando um pouco a solidez (leia-se Pitbull fêmea) das minhas formas.
Porém, como a grande maioria das mulheres que não se chamam Solange Frazão, sempre fiquei insegura vestindo aquelas míseras peças de lycra que custam o olho da cara, ainda por cima.
Não é nada fácil a vida de uma mulher e ficar caminhando, correndo, se abaixando, mergulhando seminua é uma das tantas tarefas difíceis.
Então, cheguei aos quarenta.
Os temidos furinhos começaram a migrar, pois descobriram que poderiam ocupar várias terras até então desabitadas. Tipo aqueles canalhas que se apropriam de lugares que não são deles, mas pensam "opa, não tem ninguém por aqui, vou pegar para mim."
E assim aconteceu com as ruguinhas do rosto, que resolveram dar uma banda pela zona sul, pois ainda não conheciam os cotovelos e os joelhos.
E, imitando os furinhos e as rugas, eis que os sinais se aventuraram em mãos, coxas e canelas.
Assim, mesmo o contorno sendo tenaz na batalha, ele é solitário na luta intrépida contra a degeneração das células.
Notícia ruim?
Depende do cérebro que a recebe.
Eu definitivamente não estou pronta pro biquíni e definitivamente, finalmente estou me lixando.
Porque cansa muito morar em um país ( atentem para que tenho ciência de que esse é o menor dos males do país) que não quer que a mulher envelheça, de jeito nenhum.
E, se eu não morrer antes, vou ficar cada dia mais velha, mais flácida, mais enrugada e, livra-me Pai de cair na tentação de virar alguma aberração, das muitas que andam por aí, ostentando bocas que nem vou dizer o que parecem.
NÃO, FOLDER! Não estou pronta, do teu ponto de vista.
Não preciso estar bronzeada, sarada, loiraça, bocuda para me sentir feliz no verão.
Se estou bronzeada é porque curto o sol, se estou forte é porque me exercito para poder segurar, um dia, meus netos no colo, sem dor nas costas, se estou magra é porque prezo a minha saúde.
E me deixa em paz ! Vai parar na casa de quem ainda enlouquece de fome em agosto para se jogar na comida e no marasmo em abril! Quem ainda paga trezentos reais por dois pedaços de trapos, quem faz aquelas dietas da proteína, toma boletas e faz bronzeado artificial!
Sou feliz assim, folder maldito e sabe-se lá por quanto tempo terei lucidez para curtir a vida, visto que estou, aqui, conversando contigo.
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