domingo, 28 de setembro de 2014
Long Board
Ele andava tão ocupado.
Em trocar pensamentos, em forma de conversa, com todos os seus afetos.
Guardava na retina cada gesto que acompanha palavra, cada ruguinha no canto dos olhos que acompanha sorriso e fazia questão de ser apenas ouvidos, depois de tanto tempo sendo discurso.
Se ocupava demais em deitar ao sol, deixando o calor inundar a pele e criar desenhos psicodélicos nas pálpebras fechadas.
Doou todos os ternos, assim como os sapatos, alguns ainda nem usados.
Rasgou muitos papéis.
Criou uma pele grossa na sola dos pés, mas deixou de ter bolhas nos dedos mindinhos.
Tirou da garagem - para quatro carros - aquela Long Board pintada com duas listras vermelhas no centro e passou três meses na praia.
Ele e o cachorro, do qual ele lembrava mais do latido no pátio do que da pelagem longa e dourada. Finalmente ficaram amigos, apesar dele entender pouco de amizade, mesmo tendo mais de mil nomes na sua lista de contatos.
Se separou da mulher.
Se uniu aos filhos, pois lembrava das mãos rechonchudas tentando salvá-lo, depois das mãos adultas que continuavam com a mesma vontade de ferro nas tentativas de puxá-lo de algum buraco escuro que ele mesmo cavara.
Não lembrava de nenhuma mão feminina em tempos de dificuldades.
Ele andava tão ocupado.
Em desatar os nós e formá-los laços.
Pois ele havia estado tão ocupado em construir tanta coisa que esqueceu que o tempo não era dele, mas do mundo.
Justo agora.
Que ele não tinha mais tempo.
Mesmo agora.
Que ele se ocupava, finalmente, cuidando da felicidade.
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