segunda-feira, 15 de setembro de 2014
Inveja
Tem coisas que a gente não explica.
Um corpo doente que desiste de sofrer e recupera a vontade de viver.
Um pensamento nosso que cai, assim, na cabeça do outro e ele vira aquelas palavras exatas que dançavam na nossa mente.
Uma pessoa que não víamos há anos e, de repente, a gente a encontra, duas ou três vezes, nos lugares mais inusitados do mundo.
O nosso cãozinho que lambe as nossas lágrimas e as sente.
Um olhar de compreensão e reconhecimento quando a gente menos espera.
Um desconhecido que nos parece íntimo.
E a inveja.
Essa coisa tão feia que tenta apagar o sol alheio.
Que tenta encher o nosso dia iluminado com nuvens carregadas de vazios.
Porque não é fácil sorrir, mas o invejoso pensa que o nosso sorriso é grátis e que temos um jardim de coisas boas que nascem do nada. Da sorte. Essa maldita que deixa o rancoroso repleto de sensações de injustiça.
A luz nasce de um lado e morre do outro, nos dias que se sucedem e que formam os anos.
Quem inveja o outro só percebe o dia que nasce e não enxerga que para ele existir é preciso morrer o corpo no descanso das noites.
É preciso perder algumas horas para ganhá-las, perder algum tempo acariciando para poder sentir o calor de uma mão macia no nosso rosto.
Porque quem se ressente da felicidade dos outros nunca soube ser feliz, pois entende a felicidade como algo reto, barato e superficial.
Quem tenta turvar a luz do próximo por despeito é feito nuvem de temporal.
Parece densa, assustadora, significante.
Mas passa rápido e deixa a certeza de que é preciso um pouco de negritude, um pouco de tormenta para o verde ficar mais vívido.
E para que a força de tudo que tem amor nas raízes se torne imensa.
Perene.
Então as nuvens correm assustadas pelo vento.
Aquele que remexe deliciosamente os cabelos.
E leva embora o peso leve dos maus agouros.
Enquanto o céu dá o azul da sua graça.
Um azul só reconhecido por poucos.
Aqueles que não invejam nem maldizem os outros.
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