sábado, 20 de setembro de 2014
Dois Óculos
Era dela a memória seletiva.
Quando precisava se lembrar dos próprios erros.
Ah, mas guardava na ponta da língua cada deslize ou falha alheia.
Porque tinha dois óculos guardados na gaveta.
Um em que, quase como binóculos, via cada detalhe das faltas dos outros e outro que tornava tão diminutos os seus próprios erros que a grandeza de ser ela mesma se tornava cada dia mais densa.
Então ela reinava absolta nas suas certezas.
Certeza de que proporcionava mais do que recebia.
De que a acidez das suas palavras eram facilmente confundidas com brincadeiras.
Certeza de criança que tapa a cabeça contando uma verdade depois de um adulto lhe convencer de que as mentiras piscam vermelhas na testa.
Quem a amava (no princípio, pois não se ama para sempre quem não caminha ao nosso lado) protelava verdades, se magoava em silêncio e perdoava rápido sem dizer palavra.
Porque para ela Dizer era faca afiada.
Mesmo que para os outros fossem tentativas de sol depois de uma tormenta interminável.
Ela vivia de dedo em riste.
Apontando.
Tudo em todos.
A falta de tempo, a chatice, a falta de dinheiro. A acomodação, a preguiça, o cansaço, a indisponibilidade.
Não ouvia.
Mas queria ouvidos de prontidão.
Criticava.
Mas queria sempre aprovação.
Pedia muito.
Se doava pouco.
E um dia esqueceu para sempre um dos óculos no fundo das suas lembranças.
E se tornou vestida do outro.
E passou a se enxergar enorme.
Seus afetos, mesmo falhos, ficaram bem guardados e esquecidos.
E ela ficou feliz.
Até perceber que estava sozinha.
Pois só enxergava à si mesma.
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Que lindo.
ResponderExcluirObrigada, Aracélli! Beijos
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