sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O Segredo


Elas eram cunhadas.
O marido de Ana, Caio, era advogado, seguindo os passos dos pais. Os irmãos de Caio, Renata e Ricardo, também haviam optado pela mesma carreira. Exemplar, diga-se de passagem.
Já Ana era de outras paragens, outros ideais. Se encontrava na vida sendo professora de educação física, era adepta de florais, só usava tênis nos pés, trançava os cabelos e fugia de qualquer roupa com botão.
Adorava Cat Stevens, tinha oito gatos, era vegana e chamava a atenção pela beleza dourada, de sardinhas no nariz.
Tinham a mesma idade, ela e Renata, a cunhada. Mas também era só isso que elas tinham de igual.
Renata com a sua vida medida por fita métrica, vivia impecável, educava o filho com mão de ferro e tinha um apartamento em Paris. Fazia pilates, mechas californianas, botox e massagem.
Nas reuniões de família, Ana se ressentia de Renata e Renata se ressentia de Ana, pois viam, uma na outra, alguma coisa que haviam perdido no decorrer da passagem do tempo. Ana se culpava por ter levado as coisas, assim, tão na flauta e a cunhada se culpava por não ter se permitido adocicar os dias com menos rigidez.
Se davam bem, é claro, riam todos como todas as famílias fazem, contavam piadas, levavam as suas especialidades para serem degustadas e elogiadas, ajudavam na louça.
Às vezes, ambas se pegavam pensando a mesma coisa: se não teriam sido mais felizes sendo um pouco diferentes, se não teriam feito mais felizes os seus maridos, evitado tantas brigas.
Mas amizade entre elas era algo improvável, impossível.
Até aquele dia.
Em que ambas se encontraram.
De surpresa, de repente, em uma explosão de reconhecimento e terror.
Na saída de um motel.
Sem seus maridos.
Diga-se de passagem.
Se tornaram as melhores amigas.
Dividiam confidências, contavam os podres de seus cônjuges, as performances de seus amantes, os infortúnios de seus trabalhos.
A família recebeu com encantamento essa mudança de comportamento.
Elas trocavam olhares cúmplices nos jantares e mensagens no WhatsApp sobre as novidades. 
Renata passou a se sentir mais solta, a se vestir com roupas mais coloridas. Ana cortou um pouco os cabelos, trocou os tênis por sapatos mais femininos, fez peeling na pele.
E a vida foi seguindo adiante.
Um pouco mais leve para ambas.

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