terça-feira, 16 de setembro de 2014

Sempre dá tempo de se amar.


Hoje eu ouvi, de duas mulheres, afirmações que me fizeram pensar.
Já penso demais, mas tive uma overdose de pensamentos.
A primeira, por volta dos sessenta anos, minha antiga vizinha querida, era compulsiva por limpeza. Enquanto eu banhava os meus pés nas águas turquesas do condomínio, ela, lá no alto do sexto andar, batia tapetes, massacrava o aspirador de pó, quarava lençóis na sacada. Todo o santo dia.
Eu tapava os meus olhos do sol, olhava para cima e me perguntava "o que faz uma doida dessas querer limpar tanto?"
E olha que me considero uma mulher caprichosa.
Pois bem, a segunda, por volta dos setenta e cinco anos, querida amiga, vizinha, culta, adoradora dos animais, fluente em francês e inglês. Uma mulher que deixou de se olhar no espelho, pelo menos, há duas décadas, jogou a vaidade no lixo, adotou o moletom como uniforme (em cima e em baixo), é viúva, solitária e vive de pantufas.
Então, eis que encontro a primeira na hora do almoço depois de quase sete anos sem ter tido notícias. Depois de muitas risadas e bate-papo, o meu cérebro, traumatizado, lasca a pergunta: "Tem limpado muito?"
"Não limpo mais. Fui me tratar."
No meu pensamento, gargalhei. Bati palmas, peguei na mão e beijei.
Ao vivo, consegui ser menos intensa.
A segunda.
Eu percebia que tinha que repetir várias frases, enquanto os nossos cães rasgavam a grama das casas na correria dos saudáveis e na minha visita de calçada. Não falava nada, pois sempre entendi que ela considerava à si mesma como a última pessoa merecedora de regalias ou atenção, então me desdobrava em atenção, mas não mencionava os cuidados falhos com ela mesma.
Percebi que a surdez tinha cedido e falei (novamente a minha sede de ser sem pensar):
"Tu estás ouvindo bem hoje."
"Ah, coloquei aparelho. É caro, mas a gente merece se tratar bem, não é mesmo?"
No meu pensamento me ajoelhei. No meu pensamento enchi os olhos de lágrimas e solucei.
Ao vivo, consegui ser menos intensa.
Sim!
Merecemos não limpar tanto para afogar a nossa necessidade de ser pega no colo. Merecemos um aparelho de surdez, pelo amor de Deus, pois merecemos ouvir cada trinado, cada farfalhar, cada agito, merecemos sentir prazer mesmo que o prazer tenha nos sido ensinado como pecado, como gasto desnecessário.
Ser feliz é se ouvir.
Cada dia, minuto, segundo. E não por isso deixar de ouvir o outro, pois nos fazer felizes já nos faz mais capazes de fazer tantos outros felizes.
Não quero limpar, fingir, pedir, me esquecer.
Tanto.
Não quero trabalhar, consertar, protelar, me violentar, permitir.
Tanto.
Não quero limpar, não escutar, apaziguar, não enlouquecer.
Tanto.
Não quero não me permitir.
Tanto.
Não queremos.
Eu e tu.
Pois vamos ter que desembarcar em algum momento.
E ninguém deve sair de uma viagem chorando .

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