quinta-feira, 25 de setembro de 2014
Frida
Eu acredito em destino.
E em anjos.
Sou profunda e absolutamente espiritual, o que não impede que eu ame sapatos.
Mas o meu cerne, a minha vida é regida pelo meu lado esotérico e minha absoluta fé no sobrenatural, por mais que ele nos seja invisível (outras vezes nem tanto) como o ar que respiramos.
A Frida, a minha amada cadela barbuda, sapeca e descabelada é um exemplo prático, aos meus olhos, da afirmação do que acredito.
Nunca vou para o litoral gaúcho.
Naquele ano fui.
Alugamos uma casa em Xangrilá, há milhares de quadras do mar. Mas quem se importa quando se tem pernas?
Em uma manhã iluminada pelo sol de fevereiro, saí para a minha corrida matinal, quase vespertina, na beira da praia.
Confesso que sou uma verdadeira nulidade em termos de GPS particular, pois, invariavelmente, me perco. Certa vez, morando em Florianópolis, na saída de um shopping no Estreito, fui tão, mas tão para o lado contrário do que deveria, que, pedindo informação em um posto de gasolina, descobri que estava quase em Blumenau, com duas crianças adormecidas no banco de trás, depois de três horas de tentativas em voltar para o meu amado lar.
Em Xangrilá não foi diferente.
Antes de sair, memorizei as características da nossa rua, mas descobri depois que todas as ruas e casas se parecem, naquele mundinho de asfalto, areia e calor, para meu tão familiar sentimento de desespero.
No momento que fiz a curva na rua errada, eu vi.
Algo pequeninho, minúsculo, meio preto, meio cinza, se mexendo no fervor dos paralelepípedos.
Gelei.
Com cinco cães em casa e mais de vinte recolhidos das ruas, quis que o vultinho fosse apenas um pano levado pelo vento ou, quem sabe, um Quero-Quero ciscando longe de casa.
Não era.
Comecei à caminhar, chegando pertinho.
Então, meu coração (ai, esse meu coração...) abriu uma porta e cedeu espaço, antes de eu olhar feio para o meu peito e dizer: "fica frio, endurece um pouco, afinal, o mundo é duro, oras."
Mas no meu coração não mora só gente, não,
mora céu, mora chão.
Mora bicho, lágrima, sorriso.
Mora vida, seja ela qual for.
E ela, que não ia passar daquele dia, passa todos os dias comigo.
Ela é amor puro, energia, sorriso, carinho, esperança, tudo isso que bombeia, como sangue, e dá força.
Porque ela é muito mais do que um cãozinho.
Já virou livro publicado.
Essa bolinha de vida que vive de me arrancar gargalhadas.
Que de pequeninha não tem mais nada.
Que se avolumou em corpo e em afeto e me salvou quando desviou a minha tristeza nas coisas.
Que, para os outros, é apenas um animal de quatro patas e pelo duro.
Para aqueles que não acreditam nos anjos.
E nunca se perdem e se acham nas ruas.
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