segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
A Dor Salva
A dor tem que ensinar.
Porque tudo de ruim ensina.
Venho aprendendo com as dores há muito tempo.
As de corpo e de alma.
Quando me sentia feia e me chamavam de gordinha na faculdade, quando olhava para o lado e nunca via o meu pai, pois ele batia as suas asas nos ares, dentro de algum avião, quando eu queria entender da vida e perguntando à minha mãe não tinha respostas, pois eu era criança e criança era um pouco desinteressante.
Quando caí de uma árvore e desmaiada só o meu amigo se importou.
Quando tive a minha primeira filha e quem eu mais queria ao meu lado não podia abdicar das férias de verão.
Fiquei tão forte e densa depois de tanta coisa que nunca mais nada me derrubou.
Me balançam, me agitam, me curvam, me esticam feito elástico, mas jamais me arrebentam.
As dores do meu pé me deram um certo trabalho desde o ano passado, me mostrando que o vigor e o fôlego podem persistir com a idade, mas o corpo vai pedindo trégua.
Não me desesperei, apesar de sofrer, pois tem tanta coisa em jogo.
O bem estar, a conscientização de avanço da idade e, portanto, finitude. Os limites que a vida impõe e como ela nos mostra o que sempre queremos negar até o último respirar.
Não, a dor me fez gostar de sentir o vento, sentada no banco de uma bicicleta.
Me fez enxergar o valor da moderação, da resiliência, da aceitação, não comodidade.
A dor é tão importante quanto a felicidade.
Pois a dor talha enquanto a felicidade gratifica, mas mima.
A dor prepara, fortifica, esculpe a capacidade de ser feliz, de tolerar as batalhas sem chorar as derrotas.
A dor é remédio para a alma fraca.
E mesmo em grandes doses, nunca vi ela matar.
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