domingo, 9 de fevereiro de 2014
Com Quem Você Dorme?
Jamais vou dormir sentindo raiva.
Ela pode virar uma torrente de lágrimas, de frustração, de desesperança.
Lágrimas que de manhã bem cedinho já estão secas e superadas.
Mas dormir com raiva envenena a alma.
Tenho poucas raivas, mas confesso que as tenho.
A falta de educação e a injustiça são alguns dos motivos dela brotar em mim feito mordidas de mosquito.
Mas antes de dormir dou trégua à tudo que me enraivece e mergulho na calmaria, mesmo que de madrugada eu ainda acorde tentando digerir aqueles caroços que custam a atravessar a minha garganta.
Posso ter sonhos pesados, mas o medo noturno não me ataca, pois deito com o coração aberto, depois de ter passado o dia inteiro conversando com o único que me julga e à quem entrego a minha alma às suas asas.
Já dormi tão excitada com as promessas do amanhã que a cada sobressalto eu degustava, insone, a expectativa que nem sempre condizia com o que eu esperava.
Já dormi nervosa, depois de tantos anos de formaturas, casamento, nascimentos, primeiro dia de emprego, de aula, dia de prova.
Já entreguei tantas coisas ao meu travesseiro que ele só não fala por medo de não dar conta de tantos pensamentos.
Mas raiva não.
Já não simpatizo muito com essa bichinha e ainda trazer ela para o meu canto sossegado?
Aquele em que suspiro quando endireito as costas que ficam meio pesadas com o peso desse mundinho doido?
Não, obrigada.
Prefiro dormir chorando, sorrindo, esperando, pensando.
E se amanhã eu me irritar novamente, vais ser uma irritação branda.
Porque eu não alimentei o rancor com o que ele mais gosta: insônia banhada em fantasias de vingança.
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