Eles estavam juntos.
Há muito tempo, há pouco tempo, o que importava?
Depois de querer não só dividir os abraços, os beijos, passaram a dividir as contas, os medos, as alegrias, a televisão, o banheiro.
Os cansaços.
Ela, mulher moderna, carregando a bigorna de chumbo do stress nas costas, essas coisas de mercado e competitividade que antes (nem tão antes, mas quem se importa?) eram destinadas somente aos portadores de testosterona.
Ele, professor particular de inglês, com horários mais flexíveis, agenda menos obsessiva.
Juntos.
Um dia, depois dela enrijecer a coluna, acelerar o coração e criar vincos entre as sobrancelhas, de tanto remoer o futuro incerto, quando ele veio querer alguma coisa (ninguém sabe o que, mas quem se importa?) que faltava há algum tempo na linha macia que unia os dois, ela disse:
"Eu tenho os meus problemas, não tenho tempo para essas besteiras, tenho mais o que pensar."
E ele viu que algo tinha mudado.
Pois os problemas , antes dos dois, agora eram mantidos sob a tutela dela.
E com nome e posse, se tornavam concreto, parede que separa vidas e interesses.
Desde quando aquele monte de alegrias, incertezas, esperança, vontade de fazer feliz, choros, motivação, problemas, tinham se tornado de um só?
Ele não quis perguntar.
Pois tinha muito medo das respostas.
De ambos.

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