segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Viver Vale a Pena


Contas, filhos pequenos, filhos crescidos.
Falta de emprego, muito trabalho.
Casamento como deve ser, com altos e baixos.
Família, política, problemas de saúde.
Eu estava pensando nessa existência humana, doída, bonita, mas sofrida, cheia de desafios diários.
Então resolvi ligar a televisão, algo incomum para mim que sou arisca à maior parte dos programas.
Coloquei no meu canal preferido, o History Channel.
Mergulhei, por sabe-se lá quanto tempo, no documentário que me caiu feito luva depois de remoer tantas dúvidas.
A vida linda, suprema, enebriante e dura dos oceanos.
A baleia Jubarte e seu bebê viajando por meses até o destino da fartura de Arenques. Ela sem se alimentar por todo esse tempo e ele mamando até quarenta mil litros de leite por dia. Colados, unidos contra as adversidades diversas, como as Orcas.
Leões marinhos na caça solitária e perigosa, tentando garantir o pão de cada dia, morrendo aos poucos pelas cabeçadas das baleias que são chamadas de assassinas, mas apenas tentam coexistir e sobreviver também nessa loucura que é tentar respirar.
As gaivotas que labutam os restos, os golfinhos e os próprios Arenques, que se reunindo no ato instintivo de se reproduzir e multiplicar, viram isca e fonte de vida para tantos outros.
Normalmente fico triste com essas cenas duras do mundo selvagem, mas me dei conta de que vivemos todos assim.
Porque as dores e perdas físicas desse mundo ainda intocado dos mares, são as nossas lágrimas emocionais.
A visão do leão marinho tentando respirar na superfície, depois de ser machucado diversas vezes e finalmente sucumbindo ao inevitável não me encheu de tristeza, pois em um momento de lucidez compreendi.
Nada aqui é fácil. 
Nada.
Ganhamos de um lado, perdemos de outro.
As gaivotas tem uma visão linda de cima, mas sobrevivem de restos.
O banquete das baleias demora seis meses para chegar.
Os golfinhos devem ser rápidos para poder usufruir.
Todos se arriscam, sofrem, se superam.
Nenhum questiona nem reclama.
Apenas usufruem quando lhes é dado, regozijam e se recolhem para curar suas próprias feridas.
E tudo começa de novo.
O sol reflete feito ouro na superfície da baleia alimentada, que caçou unida às outras e está com sua cria protegida nas barbatanas.
As gaivotas sacodem as asas úmidas e as secam na areia fina e branca de alguma praia.
Os leões marinhos levam a caça para as rochas, pois muitos aguardam.
As Orcas mergulham e se lançam para fora, girando. Quem sabe nenhum ser humano apareça hoje para levá-las para o circo ridículo e cruel dos parques aquáticos.
E todos tem apenas uma única chance nesse planeta.
E ninguém disse que seria fácil.
Mas todos sabem que vale a pena. 

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