quinta-feira, 31 de julho de 2014

Mulher Pára-Raio


Não sei mais como andam as relações da geração alfabeto, mas nasci para ser pára-raio.
Uma mulher pára-raio é um estandarte que não enfeita, mas serve como calmante nas intempéries da família.
O filho discute com o pai. Ela vai lá e põe panos quentes na inflamação de ânimos, na erupção iminente.
Os irmãos brigam com facas de manteiga, prontos a perfurar alguma jugular, sem sucesso. Ela aparta, xinga, diz que irmão nasceu pra se amar e coisa e tal.
O marido chega sobrecarregado, cansado, pois passou o dia ganhando mais dinheiro do que os outros membros da clã, então tem os seus direitos fincados no maior degrau do pódio.
O que ela faz?
Engole o seu próprio cansaço, pede aos filhos que recuem um pouco nas tentativas de assassinato mútuo, deixa o jantar caprichado e faz perguntas que jamais foram feitas à ela, parecidas com "como foi o seu dia?".
Uma mulher antiga, daquelas nascidas na época em que a sociedade dizia que elas deveriam cuidar dos filhos e eles deveriam ganhar dinheiro, é mais forte do que braço de halterofilista.
Porque bater a porta atrás de si e deixar o pacote de exigências emocionais para trás em prol da batalha pelo pão diário não é fácil, mas é mais fácil do que administrar emoções puras, sem os retoques, sem as limitações do convívio social civilizado.
Porque em casa a maior parte da civilidade é deixada junto ao ato de afrouxar a gravata, largar os cadernos, chutar os tênis All Star para baixo da cama.
E mesmo que ela, a pára-raio, tenha ganhado um punhado de dinheiro com a Mary Key, com a consultoria em comunicação, com o free lancer em publicidade, a revenda de roupas, a tradução de livros ou até o turno de oito horas diário, será ela quem irá aparar as arestas, trocar a gaiola do canário e esvaziar as lixeiras do banheiro. É nos seus braços que cairão as cabeças cansadas e são as suas mãos que enxugarão aquele monte de lágrimas oriundas das batalhas dos seus amados, mesmo que elas sejam pequenas.
Serão tantos os copinhos a equilibrar, tantos os conselhos a dar, tantos os raios a absorver que ela até esquecerá que também tem energia elétrica suficiente para desencadear uma tempestade.
Uma tempestade que sempre acontecerá dentro dela.
Sem emanar luz, nem barulho.
Pequena aos olhos dos outros.
E irá durar até, silenciosamente, passar.
Ou até arrebentar e destruir cada pedrinha que se fez montanha.
Dentro do seu coração.

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