domingo, 6 de julho de 2014
Nossos Filhos
Minha filha mais nova completará 19 anos na próxima terça-feira.
A mais velha está com a idade que eu tinha quando a tive.
A mais nova saiu do colégio para a faculdade, arrumou um estágio e um namoro firme, tudo no mesmo ano. A mais velha se forma em dezembro, solta as tranças no seu próprio carro, já foi para o exterior sozinha (algo que fui fazer só aos 46), trabalha desde o primeiro semestre.
Duas mulheres e seus segredos.
Mas que nunca deixarão de ser os meus bebês.
Às vezes, quando converso com alguma aqueles assuntos sérios, meus olhos pousam nas mãos de unhas bem feitas (feitas por elas mesmas, diga-se de passagem), mas não são as unhas que me levam à um passado distante. É a mão e o seu exato formato que, outrora, rechonchuda e com covinhas, agarrava o meu dedo polegar com força enquanto sorvia leite dos meus seios. É a mão que sumia na minha quando eu segurava forte para atravessar a rua. É a mão que se elevava ao alto, espalmada, quando os barulhos da vida lá fora eram intensos demais para um recém nascido.
Elas, lindas por dentro e por fora, com seus Cabelos Cascata que emolduram o mesmo rostinho, a mesma boca que já sorriu um sorriso aberto e desdentado. Que já gargalhou das palhaçadas da mãe, já se escancarou em dores de ouvido, já emitiu gemidinhos enquanto segurava a mamadeira de Nescau.
Quando os namorados são os corpos abraçados e beijados com carinho, não me ressinto, pois o amor, mesmo imenso, se manifesta de diversas formas no decorrer da nossa longa existência e todo aquele ardor e necessidade infantil de me ter nos braços, terá crescido e modificado. Não acabado.
E virão os filhos delas.
E voltarei à pegá-las no colo. Um somatório do amor meu, delas, dos que elas amam.
Sei que vou receber uma nova lufada de ar e o meu sentimento de finitude será protelado ao ter novamente mãozinhas rechonchadas que se agarram aos meus cabelos.
E quando elas forem avós, quem sabe eu não renove novamente o ar que respiro, quem sabe.
Ou talvez eu já tenha sido tão renovada que esteja finalmente entendendo tudo.
Toda essa trégua que Deus nos dá, nos mostrando que viver não é fácil.
Mas é lindo.
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