quinta-feira, 3 de julho de 2014
Não quero ser uma menininha
Amo e odeio, ao mesmo tempo, quando ouço a seguinte frase: "você parece uma guriazinha!"
O meu lado vaidoso se estica, tentando ultrapassar os meus míseros um metro e sessenta de altura, mas logo despenca corpo abaixo quando realizo todo o significado imenso escondido nessas quatro palavras.
Sei que tenho o privilégio de ser mignon, o que ajuda muito no quesito de esconder os anos, mas tenho 47 anos e nunca, jamais posso aparentar uma guriazinha. Posso aparentar menos idade, por diversos fatores como peso, altura, bom humor, roupas pouco sisudas, cuidados com a saúde, mas guriazinha é power.
Não quero aparentar o que não sou, quero ser uma mulher da minha idade com uma aparência agradável e me comparar à uma menina é um elogio depreciativo ao que me tornei.
Porque subentende-se que apenas uma mulher jovem pode ser interessante, bonita, desejável e me surpreende, pois nunca me senti tão interessante e de bem comigo mesma como me sinto atualmente.
Não vou mentir que fico feliz com as mazelas da pele, dos cabelos, dos músculos, com o passar dos anos, mas isso é muitíssimo pouco, perto do que ganhei.
A beleza jovem é radiante, mas também pode ser vazia. Que o diga Robert de Niro, Meryl Streep, Al Pacino (que, valha-me Deus, só melhorou e melhora), Diane Keaton.
Eu sei que o mundo não perdoa a velhice, mas não existe atitude mais depreciável do que não querer envelhecer e se transfigurar em uma versão velha de seus dezessete anos.
Dias desses, parada em uma sinaleira na rua do Shopping Moinhos, vi uma mulher alta caminhando pela calçada. Ela tinha os cabelos platinados até a cintura, estava muito bronzeada, usava uma micro saia e botas estilo cowboy, de cano alto. Tinha mais de cinquenta anos e a luta que ela travava com o tempo era ingrata. Parecia a vó da Barbie, modelo street.
Muito triste.
Nada contra cabelos compridos, roupas joviais, mas a neurose de querer estacionar no tempo é um sofrimento para quem a tem e para quem convive com essa pessoa, pois ela vai querer o que não possuí e dessa necessidade outros planos impossíveis irão surgir.
Fico feliz quando dizem que aparento menos idade, pois isso significa que estou me tratando bem e isso é ótimo.
Mas não fico feliz em aparentar uma guriazinha, pois também desconfio que no exagero do "elogio" esconde-se a intenção de massagear um ego que se desconhece.
Enfim, não sou mais ingênua, tampouco insegura.
Sou uma mulher madura que foi menina.
Foi estudante, namorada desse, daquele, chorou por alguns. Foi tenista da equipe da Sogipa, noiva, esposa, grávida.
E que venham mais vivências!
Que venha o futuro desse passado que ficou para trás.
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