terça-feira, 15 de julho de 2014
A Banana
Sempre que começo à me envergonhar da minha pouca animação com o convívio social, aquele puramente social (subentende-se com pessoas pouco conhecidas), me lembro do episódio da banana e relaxo.
Eis que várias mulheres de meia idade enchiam as suas cabeças com conversas e caipirinhas em uma roda de cadeirinhas coloridas, na beira da praia de Atlântida.
O papo era dos mais profundos, migrando de compras em Nova Iorque para as bodas do filho de uma, como se pronuncia Louboutin de maneira correta, tratamentos estéticos, empregadas e afins.
Lá pelas tantas, depois do meu fígado estar muito intoxicado (não de caipirinha), uma das donzelas que nem lembro mais qual era, revelou que havia se submetido à todos os tratamentos estéticos oferecidos por uma clínica conhecidíssima pelas donas das boquinhas infladas. Todos.
A questão era que a eficácia dos tratamentos era baixa, exceto por um.
"O que retira aquela bananinha do glúteo".
No mesmo instante me virei para a locutora e questionei o que era "a bananinha do glúteo".
Para minha surpresa, 50% do quorum sabia o que era e para a minha surpresa maior, todas começaram à se levantar para indicar quantas eram portadoras do defeito macabro, que consta em um traço abaixo do traço normal do glúteo.
Os dedos iam apontando para a região, aquela gordurinha espremida entre o traço superior e o inferior, a...BANANINHA!
Como o traço inferior é considerado flacidez, esta maldita gordurinha é muito mais perigosa do que qualquer banana de dinamite, pois explode, dilacera, liquida com a perfeição do bumbum.
A donzela havia se libertado deste castigo supremo, mas eu me vi sendo alvo de risadas conspiratórias e cúmplices, pois, como muitas das outras, era portadora do estigma.
Lembro que fiquei meio traumatizada no momento e quando saí para dar uma caminhada com o meu marido, confesso que fiquei olhando para todas as bundas alheias, femininas é claro, o que poderia acarretar em uma suspeita nada verdadeira ao meu respeito. Lembro também de me sentir injustiçada, pois mesmo malhando igual à uma condenada, tinha um defeito que era considerado coisa de gordinhas.
Mas duraram pouco as minhas preocupações e fui me lembrar deste episódio, hoje, depois de meio ano.
Senti um alívio tão genuíno e um orgulho enorme por me sentir deslocada na maioria dos grupos sociais.
Ah, e se eu fosse um pouco mais flexível, me virava e tascava um beijo na minha bananinha adorada, prova de que estou com a cabeça no lugar.
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