sábado, 19 de julho de 2014
Ontem eu briguei com Deus.
E foi um pouco feia a briga, como aquelas que temos com quem realmente amamos. Porque a indiferença é a forma mais pura de desafeto.
Na verdade foi um monólogo e não uma discussão, pois Ele fez o que sempre faz: espera e mostra mais tarde o que pensa de mim. Mas não falando, pois os falastrões são a versão mais cansativa de não ter razão.
Ele age.
Me abraçando, perdoando, mostrando que jamais entenderei a negação de querer entender tudo. Não posso ter esse direito agora, por mais beiço que eu faça.
Ponto final.
Tudo começou com um leve vibrar na minha cabeça, depois de eu ouvir a desesperança sair da boca das pessoas. Em relação à política, futuro, finanças, meio ambiente, educação.
A vibração aumentou com as notícias de um urso que é torturado lentamente em um zoológico, os vários assaltos novamente amedrontando o meu bairro, o cão jogado da janela de um carro.
O meu corpo se contraía e a minha mente, sempre leve e brincalhona, começou à se turvar com o peso de algo que eu não enxergava.
Mas fui escrever, correr, beber um cálice de vinho, tomar um banho quente, me encher de perfume e de creme adocicado. Fui agradecer o que sei que tenho e de sobra.
Então, depois de fazer da vibração um amontoado de palavras, eis que cliquei em algo errado. Sem querer.
Mas muito errado, feio, incompreensível, triste.
Um vídeo postado que mostra uma mulher que deixou a sua alma estacionada em algum lugar muito mais lúgubre do que um campo de batalha. Porque ela não atacava os iguais, mas um indefeso.
Primeiro a vibração me tornou surda, a adrenalina invadiu os meu sangue e o horror do que eu estava vendo explodiu em cascatas de lágrimas.
E raiva.
Por que?
Porque tantos ursos, cães, mortes, bebês não podendo ser bebês, fome, miséria, violência, sofrimento?
Falta de amor?
No meio da minha convulsão de dor, eu queria respostas.
Tu és Pai, me faz entender! Justificar, perdoar, aprender com lições tão doídas.
Tenho tudo e ter essa consciência me faz ter maior compreensão do quanto tantos sofrem. E o sofrimento alheio me foi dado por alguma razão que Ele quer que eu entenda como lição.
Briguei com Deus.
Queria entrar em uma igreja católica, evangélica, luterana e ficar gritando lá na frente como todos aqueles fiéis já gritaram com seus próprios amores, mas fingem que não. Fingem que amar é apenas tempo bom.
Amor é também questionar, se entristecer, chorar, ficar P da vida. É se sentir perdido, completo, vazio.
Chorei, me debati, mas não deixei de amar.
Voltei à ver as flores e esquecer as dores.
Eu apenas quis as explicações que não posso ter.
Nem Ele pode me dar.
Porque ainda sou muito pequena para assimilar.
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