terça-feira, 1 de julho de 2014
A Ressonância do Mal
"Por favor, chegue meia hora antes do horário" diz a voz doce do outro lado da linha. Como a minha descendência germânica quadradinha manda no meu lado italiano, chego antes da meia hora antes. Sabe, quero me liberar cedo para acompanhar a filha mais velha em uma outra consulta. Tenho tempo de sobra (mal eu sabia).
Entro no hospital pronta para a minha primeira vez dentro de um tubo claustrofóbico que vai descobrir as minhas mazelas humanas.
A sala de espera fervilha. O jogo Argentina x Suíça berra na televisão.
Alcanço carteirinha, requisição, identidade.
Sento.
Sou chamada: "Alérgica à que? Medicação qual? Pinos? Diu? Facas perdidas dentro do corpo? Claustrofobia"?
Não, não, não à tudo.
Pobre filha às voltas com os livros, pois estuda em meio aos locutores gritando e às pessoas gemendo à cada ameaça de gol.
Cabeceio. A filha bate foto, faz efeito me colocando brincos, batom e sombra e publica no snapchat, eu dormindo, com a mão ornamentada pela pulseirinha do hospital, tipo pulseirinha de balada.
"Mônica Inês"!
Me revolto mais uma vez com a minha mãe e sua mania de nomes duplos e sem nada a ver um com o outro.
Coloco uma aventalzinho bem fresquinho e apropriado para os dez graus que devem estar fazendo lá dentro, com o ar condicionado à pleno.
Uma moça me encaminha à uma cadeirinha confortável, bem no meio do vai e vem de médicos, enfermeiros e pacientes, eu e meu charmoso avental, eu e minhas charmosas pantufinhas de gaze.
"Alérgica à que? Medicação qual? Pinos? Facas perdidas dentro do corpo? Claustrofobia?"
Se eu não era claustrofóbica, naquele momento comecei à ser.
"Agora a senhora sente aqui e aguarde."
Eu, meu avental charmoso, minhas pantufinhas de gaze e arrematando, um cobertor por cima.
O quadro da decadência, pelo menos uma decadência quentinha.
Vi o final do jogo e tive o privilégio de assistir à reprise da novela mais imbecil de todos os tempos, tão imbecil que eu tive vontade de jogar alguma coisa na televisão. Mas me contentei em ficar enroladinha no meu cobertor e apenas virar a cabeça bruscamente para o lado ao denotar o meu repúdio.
E se passou apenas uma hora até eu ser chamada.
Ah, agora viria a verdadeira diversão.
De bruços, quase sem respirar, imóvel e dentro de um túnel com trilha sonora de rave (ao menos, a bondosa carrasca me deu fones de ouvido para aliviar o barulho) fiquei por muitos minutos. Os braços para cima ficaram dormentes, o chilique ameaçava desabrochar à todo o instante, mas eu controlava a respiração pensando em cascatas.
"Mônica, dá pra você respirar mais suave, pois a imagem está saindo tremida"?
Não respondi para não me comportar mal depois de uma conduta tão exemplar. Então pensei em mais cascatas e me imaginei uma astronauta de um filme cheio de coragem e superação. Mas de repente me lembrei de um filme de terror em que a menininha possuída por um espírito maligno faz uma ressonância e o espírito medonho tenta sair do seu corpo, dentro do tubo.
"Bem feito! Quem mandou gostar de filme de terror?" É a voz do meu marido me dizendo o que sempre ouço quando tenho pesadelos horríveis.
Mais rave.
Braços inexistentes.
Vontade de tossir.
O tubo começa a mexer, depois de quase uma hora.
"Prontinho, Mônica" você enlouqueceu com sucesso, ela esqueceu de dizer.
Saio para a sala de recepção e revejo todos os meus semelhantes, pobres coitados que aguardam a sua vez.
Não acredito que um idoso sobreviva, mas vou rezar muito.
A filha dorme, depois de três horas, sobre os livros, a consulta dela foi perdida, mas tudo bem.
Não é todo o dia que a gente é protagonista de um filme de terror.
E dos leves, eu sei.
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