domingo, 13 de outubro de 2013

Quadro


Ela era feliz.
Ela possuía uma vida tão triste.
Ela tinha os filhos longe, todos eles, e agora mais velha se sentia tão sozinha. Abandonada.
Ela tinhas os filhos crescidos, todos eles, saudáveis, casados, felizes, morando longe.
Eles ligavam quase todos os dias, pois sabiam que a mãe dependia desse gesto de atenção para não se sentir tão sozinha.
Ela sofria a perda do marido amado. Debulhava fotografias antigas entre os dedos retorcidos pela artrose.
Ela era agora uma viúva, a sobrevivente de um casamento pleno, com amor, suporte financeiro, cumplicidade, filhos esparramando sorrisos pela grande casa com varanda, com orquídeas e bromélias, com sol e com os piados das aves.
Ela se sentia pouco amada, pouco recompensada, pouco considerada.
O amor passou pela sua vida de todas as formas possíveis, intensidades. Agora era hora de descansar os pés cansados e degustar o mesmo sol de antes, só visto com outros olhos.
Ela plantou tanto...
O que houve?
Suas sementes desabrocharam tantas flores, sua força, seus atos, fizeram a vida, pariram laços.
Era hora de usufruir das pinceladas que se fizeram cores.
Era hora de pendurar esse retrato na sala.
Acordar de manhã e olhar para ele, agradecendo.
Se regojizando.
Mesmo que o lindo cenário seja apenas um retrato que deve ser visto de fora e que é dela, mas ela não faz mais parte.
Ela era feliz.
Ela possuía uma vida tão triste.
O que tinha dado errado?

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