sábado, 5 de outubro de 2013

Presentes


A vida nos chega  de diversas formas e aprendemos até o último suspiro.
Pela primeira vez em toda a minha existência minhas mãos serviram de força, impulso e direção para uma cadeira de rodas.
Pela primeira vez em toda a sua existência quem eu guiava estava sentada em uma cadeira de rodas.
A senhora de 88 anos, minha sogra, experimentou algo novo.
Como eu.
Pedindo licença, me esgueirando entre dezenas de pessoas preocupadas com as suas vidas, conduzindo de forma apropriada alguém que queria vivenciar com os olhos o que as suas pernas não deixavam mais, aprendi demais.
Aprendi, mais uma vez, que os olhos nos dizem muito.
Vi olhares de solidariedade, de carinho.
Vi olhos que sorriram, olhos curiosos de criança pequena, olhos cúmplices de quem sabe ter os dias de força contados.
E vi muitos outros que eu não queria ter visto.
Os de desprezo, indiferença, raiva, sim, raiva por estarem perdendo tempo e passos em um lugar tão cheio de coisas para serem feitas.
Fui aluna de um curso rápido, mas não menos intenso, de como as as asas negras não conseguem se esconder dos olhos atentos.
Assim como as penas brancas nasceram de sorrisos meigos e pedidos de desculpas por estarem na frente, atrapalhando.
A "passageira" se deslumbrou com a quantidade de porta retratos, tapetes e plantas, tudo visto sem cansaço.
Eu, com a chance de ter sido provedora de tamanha alegria e testemunha dessas tantas outras coisas que me são dadas.
A cada dia que passa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário