domingo, 27 de outubro de 2013

Cheiro Bom


Cheiro de cozinha é um dos cheiros mais maternais e aconchegantes que existe.
Aquele cheiro depois que a louça foi lavada, o chão varrido e enxaguado, onde os odores dançam no ar e nas narinas e penetram nas nossas lembranças mais atávicas.
Se espalhar um pouco pela casa, melhor ainda.
Casa com cheiro de cebolinha refogada, de riso, de carinho salpicado feito tempero.
Cheiro de "vem cá que está pronto", de gente grande que era pequena, sentada à mesa, de mãos bonitas que eram roliças e miúdas, se servindo dos pratos.
Os cheiros de uma cozinha contam mais histórias do que muitos livros, em cada odor de pão torrado, de mel, de leite quente, de toda essa palavra não escrita, essa fala não dita que é o aroma das coisas, das vivências, das pessoas.
Não quero uma cozinha imaculada, sem pingos de gordura que não passam despercebidos.
Gosto desse cheiro de vida, de sálvia, de manteiga derretida.
Amo secar uma panela de ferro no fogo, secar um pano de prato na tampa do forno, escorrer um bolinho, torrar o pão na frigideira com bastante manteiga.
E depois sentar com um café fumegando.
Cheirar o ar.
Sentir.
Que nas pequenezas de existir, renascemos todos os dia.
Tão simples.
Tão pouco.
Tão grande.
Tanta vida.

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