quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Mundo em Preto e Branco


Ele está na idade em que as meninas vêem em si próprias inúmeros defeitos invisíveis ao olhar adulto.
Aquela idade que tudo brilha, os cabelos, a pele, os olhos, as ilusões.
Aquela idade em que eles saem de bando no final do turno escolar e arrulham, vivazes feito pássaros exóticos que tem o céu aberto de futuro pela frente e asas ainda em crescimento.
A idade dos tênis coloridos, roupas descoladas, skate em uma mão, iPhone na outra.
Mas para ele restou pouco.
Um cavalo, uma carroça, uma mãe de meia idade que controla as rédeas e três cães sujinhos, porém fiéis.
Restou olhar com a distância da alma, uma juventude que não lhe pertence.
Dou tudo que posso para essa mãe que permitiu que o filho, em um arroubo de viço, furasse a orelha direita e colocasse ali a prova de que ,sim, ele também tem dezesseis anos.
E é para ele que resgato tantos tênis em desuso, na tentativa de trazer um pouco de igualdade para quem nasceu na diferença absoluta.
Não vou evitar aquele olhar - que percebo quando lhe alcanço as coisas - para o grupo que desce às sonoras gargalhadas, vindo do Colégio João Paulo I.
Não vou conseguir prometer à ele o futuro que gostaria que tivesse, pois tenho medo do que ele possa encontrar na próxima curva.
Ainda lhe resta muito. 
O sorriso sempre aberto, a coragem de - em cima de uma carroça -  ajudar a mãe que labuta, a educação ao agradecer cada sacola, a  dignidade de tratar bem os seus animais, a esperança ao se enfeitar de boné e brinco.
Em uma idade onde tudo é tão dramático e intenso, me pergunto ,com medo, o que se passa em um adolescer tão duro.
À mim resta ajudar com o que tenho.
E pedir à Deus que a severa realidade que esse menino carrega nos ombros, lhe sirva como forja de um caráter ainda intacto.
E que, mesmo tendo uma juventude passada em branco, ele tenha esperança de ser um adulto que poderá escolher algumas cores para alegrar o seu mundo.

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