sexta-feira, 30 de agosto de 2013
Ave Tatuada
Lá pelos meus vinte e poucos anos eu já carregava duas lindas meninas no colo.
Eu estava tão feliz e realizada por ter colocado no Mundo duas criaturas tão cheias de amor, de alegria, de descobertas e de vida, que resolvi homenageá-las.
Tatuei duas pequenas flores nas costas.
O tempo foi passando, as doces meninas crescendo, as flores sofrendo o efeito do sol e do tempo.
Até que um dia, depois de perceber um movimento sutil de asas batendo, um prenúncio de voo se aproximando, sentei.
Olhei para as estrelas, bebi minhas recordações de boquinhas sujas de leite, mãozinhas mornas enroscadas no meu dedo, olhos que me procuravam a todo o instante.
Chorei um pouco, sorri um tanto outro.
Aceitei.
Um rascunho à caneta de uma ave com suas imensas asas abertas, cobrindo as minhas diminutas flores, me foi mostrado no espelho. Olhei pela última vez aquele colorido quase infantil e deixei que as minhas costas voltassem à sangrar.
Hoje, quando vejo os quartos vazios, quando espero a noite chegar, na ilusão de que o interesse ainda seja eu, quando tento recuar em um tempo que não é mais meu, acaricio de leve as minhas costas.
E me olho no espelho.
Choro um pouco, sorrio um tanto outro.
Aceito.
Tão linda é a minha ave, tanto quanto as minhas belas flores.
Em suas diferentes cores, traços, significados.
Agora estou mais velha e aprendi que o amor é nosso, pois vive dentro de nós.
Mas o resto...
Tem que ser livre para voar.
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