quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Morangos Estragados


Escolhi duas caixas de morangos no supermercado.
Entre muitas, levei as que pareciam conter as frutas mais lindas - encarnadas, nem grande nem pequenas, o topo de um verde intenso, quase uma foto de revista.
Ao abri-las, já em casa, comecei a experimentar o sentimento tão comum de decepção que está incorporado na vida das pessoas.
Os morangos da camada de baixo eram pálidos, tortos e quase que na sua totalidade, estragados.
Murchei, mas não desanimei. Enquanto jogava vários no lixo, lavava o restante, colocando-os, viçosos, no prato.
Eu havia sido enganada. Não uma trapaça descarada tampouco imensa, mas daquelas pequenas trapaças do dia a dia, onde alguns, nas pequenas atitudes, sobrepõe a sua vontade de vencer (?) às custas de pequenos engôdos, que eles sabem, serão desconsiderados em prol de algo maior.
Eu poderia voltar ao supermercado, dizer que isso não vale, é desrespeito, propaganda enganosa, mau caratismo. Mas dentre tantas barbaridades, os meus morangos poderiam ser fonte de piada entre os funcionários.
Então, engoli a insatisfação e feliz, levei o meu pote de lindas frutinhas vermelhas à geladeira.
Quantas vezes fazemos isso?
Os morangos, ah, são nada perto das decepções que engolimos, pois o medo de sermos incompreendidos e julgados nos amordaça e algema.
Os amigos nos machucam , mas nada dizemos, pois poderíamos comprometer o viço de uma amizade imaculada. 
Nosso chefe, marido, filho, empregado, pai, mãe nos oferecem certos morangos doentes e os aceitamos com o intuito de não perder tempo com essas coisinhas miúdas da vida.
Porém, esses sentimentos colocados na nossa lixeira, não serão recolhidos por nenhum funcionário da prefeitura. Ficarão dentro de nós mesmos, sendo corroídos pelo tempo e desprendendo cheiros que nos pegarão desprevenidos em momentos inoportunos.
Teremos esquecido os morangos, os iogurtes que nos prometem consistência de sorvete e são praticamente líquidos, os milhos com a podridão virada para baixo. 
Teremos esquecido as frases que doem, a atitudes que pisam, pois teremos muitas outras pela frente para lidar.
Porém, um dia, um dia onde a lixeira estará lotada, o ímpeto de jogar a caixinha de promessas não cumpridas no chão do supermercado será irrefreável.
E então, seremos a louca varrida que atrairá todos os tipos de olhares.

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