- Ela disse que o mundo a assusta.
- Mas ela é pequena, você sabe, o mundo assusta e ao mesmo tempo encanta as crianças.
- ...
- Mas você disse para ela não ter medo, não é? Pois você está aqui, presente, sendo pai.
- É, sou presente e sou pai, mas não posso entrar dentro dos seus medos, apenas posso ensinar o que sei.
- Isso. E você sabe que estes medos passam e que ela irá crescer e amadurecer. Então, eu não precisarei mais estar aqui, pois ela não entrará mais todas as noites no seu quarto, com medo.
- E os medos virarão o que?
- ...
- Aceitei que não posso controlar tudo, e que tenho a permissão de ficar triste com esses medos que ficaram fracos, depois de terem passado pela aceitação, decepção e finalmente indiferença. Nem por isso eles doeram menos.
- Você quer ou não, que sua filha pare de entrar todas as noites no seu quarto?
- Eu quero que ela aceite os seus medos, pois eles mudarão de nome e se tornarão nomes mais modernos como ansiedade, stress, preocupação. Eles farão parte da sua vida, assim como eu. Mas não posso ser o apagador de giz, que faz desaparecer as coisas que já estiveram pensadas.
- Mas ela precisa ter uma figura forte para guiá-la.
- Se ser forte é não sentir o medo da nova forma que ele se apresenta, acho que não sou. Porque não quero que minha filha esqueça que a vida pode ser dura, para em seguida aparecer macia. Não quero que ela pense que o Fiapo, seu gatinho, vá durar para sempre e que encontrará sempre a esperança nos meus olhos. Eu quero é que ela saiba que vou, a cada dia, procurar em cada notícia ruim a mensagem subentendida. Eu quero que ela saiba que mesmo estando triste, meu coração sempre sorrirá para ela, mas que não vou disfarçar minha tristeza com máscaras de sorrisos. Não quero que ela tenha medo do medo, mas que ela saiba aceitar o que sente. Que saiba que eu também tive medo e ela também terá preocupações e que somos pessoas. Pessoas que sentem tudo, mas que tem a benção de, em cada tombo, se amparar no amor.
- ... por hoje terminamos. Boa tarde.
- Boa tarde.

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